Um orgasmo com “Elogio da Madrasta”

Certa vez, Kafka disse a um amigo: "No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo?”. Obras clichês nos confortam, mas sem aquelas que nos incomodam e nos fazem pensar, perdem seu caráter primordial. Mario Vargas Llosa, escritor peruano ganhador do Nobel de Literatura, convida os leitores sempre ao raciocínio e à reflexão, com livros como “Travessuras da Menina Má” e “Pantaleão e as Visitadoras”. Já em “Elogio da Madrasta”, o autor mescla o pensamento crítico ao incômodo, causando asco, assombro e, principalmente, prazer.

O terror ausente em “O Menino que Desenhava Monstros”

Para um bom escritor de histórias de terror, meia palavra basta para assustar os leitores. Quando a narrativa une crianças, monstros e pesadelos infantis, em um cenário paradisíaco com casas de praia, neve abundante e segredos à espreita, a escrita encontra as peças certas para superar expectativas. Mas sem a condução adequada, esses elementos se perdem no desenrolar da narrativa e deixam de fazer sentido. “O Menino que Desenhava Monstros”, de Keith Donohue, é a prova de que histórias de terror não são tão fáceis de criar.

Em uma pequena cidade dos Estados Unidos, Jack Peter, conhecido como Jip, é um garoto de 10 anos diagnosticado com Síndrome de Asperger, o que o faz temer sair de casa e ter contato físico ou interagir com outras pessoas. Como revela o próprio título do livro, Jip aproveita seus dias desenhando monstros assustadores, mas a brincadeira não é tão inofensiva como é para outras crianças. Quando seres estranhos começam a rondar pela vizinhança, assemelhando-se às criaturas desenhadas por Jip, seus pais passam a desconfiar de que os esboços do filho podem não ser tão inocentes quanto aparentam.


Humor sem plumas

Há exatos 50 anos, um dos maiores cineastas de Hollywood lançava seu primeiro trabalho como diretor de cinema. "O que Há, Tigresa?", de 1966, foi a estreia de Woody Allen na direção de obras cinematográficas, descortinando ao mundo a genialidade que iria marcar seus filmes nos anos posteriores. Aclamado principalmente por suas inúmeras facetas, o diretor, ator e roteirista foi considerado mestre na segunda metade do século passado e continua a fascinar público e crítica na atualidade com seus roteiros criativos e bem construídos. "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" (1977), "Manhattan" (1979) e "Hannah e suas Irmãs" (1986), estão entre os seus filmes de maior sucesso, que fizeram com que Allen fosse indicado 23 vezes ao Oscar e levasse quatro estatuetas para casa.

A falta de faíscas em A Cidade em Chamas

O cenário é Nova York, e o ano é 2001. Celulares ainda estão começando a ser usados, e a troca de mensagens pela internet dá seus primeiros sinais de inovação. Pelas ruas de Manhattan, em um trânsito caótico e desordenado, jovens correm de patins entregando mensagens personalizadas. Esta é uma das poucas formas de transmitir notícias e mensagens no início do século, uma vez que Facebook e WhatsApp não existem, e até mesmo o telefone é algo que nem todos podem usufruir.

Entre os funcionários da Agência de Mensagens Personalizadas, um deles se destaca. Não por ter apenas 16 anos, ser especialista em entregar más notícias (como mortes, doenças ou atrasos), ou por ser o melhor no que faz. Heller Highland é diferente de todos os outros pois não usa patins para entregar as mensagens, mas faz a entrega de bicicleta. O garoto corre veloz pelas ruas da Big Apple, indo até a casa ou o trabalho dos clientes em tempo record, sendo ovacionado pelas pessoas que passam pelas ruas e o veem todos os dias, mas odiado por policias e motoristas de carros.

A Casa Assombrada

Histórias de horror e mistério, tão populares antigamente, perderam um pouco o espaço com o desenrolar dos anos. Talvez pela falta de interesse do público, o estilo esteve fechado por muito tempo a círculos específicos e um tanto restritos, mesmo que autores como Stephen King, Clive Barker e Anne Rice sempre marcassem presença nas livrarias pelo mundo. Nos últimos anos, principalmente com a ascensão de histórias sobrenaturais, o gênero foi novamente colocado em foco, atraindo o público e levando a novas, assim como antigas, histórias de terror.

Autores como H. P. Lovecraft e Edgar Allan Poe, tão importantes para a consolidação do gênero na literatura mundial, caíram no gosto popular e ganharam mais fama do que nunca. Com esse resgate do tradicional terror, novos autores começaram a criar histórias originais do tema, assim como escritores famosos por outros estilos, que passaram a inovar e também entraram neste mundo. É o caso de John Boyne em seu último lançamento no Brasil, A Casa Assombrada.

Desde o início de sua carreira, Boyne vem presenteando os leitores com uma série de romances e dramas históricos, ambientados em épocas como a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Iria me demorar muito se fosse citar todos os livros que gostei do autor (na verdade, gostei de todos eles), mas preciso destacar O Menino do Pijama Listrado. Lançada em 2006, a obra tornou o autor irlandês famoso quando deu origem a uma adaptação para o cinema dois anos depois, que levou milhares de pessoas às lágrimas com sua história narrada por um garoto de 8 anos ao lado de um amigo judeu, que vivia em um campo de concentração.

A maioria das histórias de Boyne partem do ponto de vista de jovens e crianças, e como não poderia deixar de ser, além dos romances históricos o autor escreveu livros juvenis, com o estilo predominante sendo a fantasia. É o caso de alguns lançamentos dos últimos anos, como Noah Foge de Casa e A Coisa Terrível que Aconteceu a Barnaby Brocket.

Em A Casa Assombrada, pela primeira vez em sua carreira Boyne cria uma história de terror, suspense e fantasmas. O livro tem como personagem principal Elisa Caine, uma jovem de 21 anos que se vê sem ter para onde ir quando seu pai morre. Em luto, sem dinheiro para permanecer na própria casa e querendo mudar de cenário e sair de Londres, ela resolve aceitar um anúncio para ser governanta e cuidar de crianças no interior do país. Ao chegar ao condado de Norfolk, a jovem encontra Gaudlin Hall, uma mansão em que mora apenas duas crianças, sem nenhum adulto por perto e uma força estranha que parece rondar pelo local. Sozinha, ela começa a querer desvendar o mistério por trás da sinistra história da família, que todos os habitantes do condado parecem ter medo de mencionar.

Charles Dickes não apenas aparece na história como é citado durante todo o livro, e é mais do que perceptível o quanto John Boyne quis fazer uma homenagem ao autor imortal, além de criar uma história aos moldes das antigas histórias de terror. Posso dizer que Boyne cria uma história satisfatória, envolvente e cativante, e que realmente faz jus aos mistérios do passado, mas não chega a ser nenhuma obra-prima.

A Casa Assombrada segue todos os moldes prontos de um livro de mistério e terror. Técnicas como abordar um assunto e apenas voltar a ele vários capítulos depois, criar cenas de suspense que logo são descartadas, além de terminar um capítulo no meio de uma cena extremamente tensa, são pontos que já vi muito em histórias antigas, e o autor realmente foi bem sucedido em seu feito. Mas modernizar nem sempre é ruim, e algumas das técnicas são clichês e foram semelhantes as que vi em livros como as da série Goosebumps, e é o que me leva a ter a sensação de que o livro deveria estar mais figurado entre as obras juvenis do que as adultas de Boyne, mesmo que o tema seja mais pesado.

O que me incomodou um pouco durante a maior parte do livro é a história em si, que não achei nem de longe tão original como parecia. Uma jovem governanta em uma mansão, cuidando de uma garota e seu irmão mais novo, sem os pais ou a família por perto, onde coisas estranhas acontecem? Se mudarmos a narrativa para o ponto de vista da garota, e ela se chamar Florence, temos a história de A Outra Volta do Parafuso, de Henry James, que tanto contribuiu para as histórias de terror contemporâneas. Aliás, o livro foi levado ao cinema duas vezes e gerou uma adaptação literária moderna com A Menina Que não Sabia Ler, de John Harding. Tudo bem que as histórias são diferentes, com um desenrolar totalmente distinto, mas a falta de originalidade me incomodou um pouco. Fonte de inspiração ou não, as semelhanças são claras com a obra de Henry James.

O que considero como o diferencial do livro, e que realmente me chamou a atenção, é o fato da história ser contada pelo ponto de vista de Elisa Caine, uma personagem fantástica e muito bem escrita. Se todos os personagens principais de John Boyne são sempre escritos de maneira delicada e cuidadosa, no caso de Elisa, a primeira personagem principal feminina do autor que leio, a história não poderia ser diferente. Ela se mostra uma pessoa de um caráter e uma fibra moral excepcionais. Em pleno século XIX, quando era esperado das mulheres apenas a submissão perante os homens, Elisa Caine se mostre forte, destemida e levantando a voz para ter suas vontades atendidas.

Não digo nem de longe que o autor decepcionou com A Casa Assombrada, mas também está longe de levar uma obra formidável para os leitores, sempre ávidos por seus lançamentos. Falta um brilho, um diferencial, aquele ponto marcante que faz com que apenas uma página já seja o suficiente para saber que o livro é de John Boyne. Se fosse escrito por qualquer outro autor, eu teria aprovado de forma extremamente positiva, mas do Boyne eu sempre espero algo a mais, o que não encontrei no livro. É bem escrito, tem uma boa história, envolve e faz juz ao gênero. Mas ainda assim, está apenas conforme os padrões e parece que falta alguma coisa.

Eliane Brum e a Vida que Ninguém Vê

O cotidiano, perante os olhos da maior parte das pessoas, tende a prevalecer como algo banal. São fatos considerados como dispensáveis de um segundo olhar, desprovidos de sentimento, que não despertam o interesse. Seja pela falta de conveniência e identificação para a maioria dos indivíduos, ou por ser cogitado o mundo extraordinário e o incomum como os que possuem mais a contar, as pessoas não creditam o valor merecido para o que é possível perceber no dia a dia. Para Eliane Brum, porém, o extraordinário está em todos os lugares, bastando apenas perceber. Mais do que tudo, o extraordinário está em A Vida que Ninguém Vê.

Formada em Jornalismo, Eliane Brum recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem, contando também com um prêmio Jabuti e prêmios cinematográficos. Sua escrita delicada e sensível se destacou desde o início de sua carreira, chamando a atenção e encantando os leitores nas redações em que trabalhou, como a do jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul, e durante sua permanência na revista Época, de São Paulo. 

O livro A Vida que Ninguém Vê, lançado em 2006, reúne uma série de crônicas-reportagens que a jornalista publicou no jornal Zero Hora, no final dos anos 90. São diversas histórias reais, retiradas do cotidiano, narrando acontecimentos que normalmente não se tornam notícias e protagonizados por pessoas que não são celebridades. Nas mãos de Eliane Brum, porém, cada personagem se torna único, descrevendo histórias a princípio simples, mas que, a partir do ponto de vista da jornalista, ganham um ar excepcional e ímpar, se aproximando de livros de ficção e fantasia.

Como o próprio título enuncia, o livro narra a vida de pessoas desconhecidas, que se perdem em meio à multidão e são ignoradas pelos indivíduos mais privilegiados da sociedade. São pessoas que possuem muito o que contar, mas que nunca ganharam voz. Personagens da vida que estão pelas ruas, em todas as cidades, mas que não recebem o valor que merecem. Eliane Brum parte do pressuposto de que todos os indivíduos são extraordinários à sua maneira, toda história pode ser um épico e, seja qual for a pessoa, ela pode se tornar um herói. Basta apenas deixar os estereótipos de lado e encarar a vida de cada um como elas verdadeiramente são: dramas anônimos de grandeza comparável aos épicos universais.

Entre os personagens expostos está Adail José da Silva, que poderia ser apenas mais um carregador de bagagens no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Uma vida como todas as outras, desde 1963 trabalhando arduamente para sustentar a mulher e os três filhos, vivendo uma existência simples e recebendo o grito "Ô, negão" pelos que passavam pelo aeroporto para viajar pelo mundo. Mas a paixão de Adail pelos aviões, e seu sonho de voar, mesmo sem nunca ter voado, o transformou em um personagem de uma história de grandiosidade e fascínio. A esperança movia seus passos, e mesmo estando a poucos metros dos aviões, o sonho de voar estava muito longe de ser alcançado.

Até mesmo objetos tornam-se personagens na mão da repórter. Um álbum de fotografias, antigo, esquecido no lixo, é encontrado por Venise de Menezes e transformado em uma esfinge pronta para ser desvendada. As fotografias são povoadas por personalidades desconhecidas, que não fazem sentido algum para quem não as conhece, e que não mais desempenham o papel de recordar quem as observa. O mais importante é o mistério que passa a existir, deixando vivas as lembranças de quem já se foi, de quem não volta mais e quem talvez nunca será descoberto. Elas representam, no entanto, lembranças de uma existência que permanecem enraizadas no mundo enquanto o álbum existir, tocando a vida de quem vê de fora.

Além de Adail José e o álbum, A Vida que Ninguém Vê, ao longo de seus capítulos, apresenta uma série de outros personagens, marcantes e notáveis, cada um a sua maneira. Entre eles, duas idosas que moram em um asilo, e passam a fazer arte para tentar mudar suas realidades; um senhor de 90 anos, sem passado, sem futuro, que mora nas ruas da cidade de Anta Gorda e ganha a compaixão dos moradores; o grande Homem de Aço, que come vidro mas sente medo de todos; e até um zoológico, com animais que se humanizam ao estar em cativeiro. São essas histórias, dentre outras, que Eliane Brum se utilizada para construir um mundo próprio e único.

Mesmo com toda a beleza apresentada nas reportagens, e a grande veia poética presente durante todo o desenrolar da escrita, o objetivo da autora vai muito além de apenas expor a vida destes pobres desafortunados. Suas palavras são um protesto perante as injustiças do mundo, e uma tentativa de evidenciar o que a maioria ignora ou tenta ignorar. Como são histórias reais, dramáticas, e Eliane Brum é a testemunha de todas elas, cabe à autora expor seus infortúnios, mostrar ao mundo que mesmo optando por não enxergar o sofrimento, não quer dizer que ele não exista. O grito dos personagens passa a ser o seu próprio.

Com A Vida que Ninguém Vê, Eliane Brum convida todos os indivíduos que leem suas palavras a se encantar com a vida, em sua forma mais pura. A vida dos considerados ordinários, dos desinteressantes, dos invisíveis. Mas vidas dos que são únicos, excepcionais, excêntricos, dos que possuem muito o que contar. Basta apenas firmar o olhar, passar a enxergar do ponto de vista certo, e se encantar com a beleza dos ignorados.

Agatha Christie e Um Passe de Mágica

Todo leitor árduo possui um escritor debaixo da manga que faz o papel de porto seguro nos melhores e piores momentos. Seja para distrair, matar a saudade, curar uma ressaca literária ou para passar o tempo, são autores com vários livros lançados e na maioria seguindo uma mesma fórmula em suas histórias. Muitos gostam de Sidney Sheldon, outros de Graham Greene ou John Grisham. Já o meu porto seguro sempre foi, e sempre será, Agatha Christie.

A autora, considerada pelo mundo como "A Rainha do Crime", lançou mais de 80 livros em sua longa carreira, com histórias que nunca me cansam ou decepcionam. Suas obras possuem bons personagens, uma história cativante e envolvente, e um final que sempre surpreende. O ponto alto são as características próprias que cada livro possui. Seja um personagem singular, um cenário incomum ou uma reviravolta em especial, cada obra possui um determinado detalhe que torna os enredos únicos e diferentes de todos os outros. 
 
Como todo escritor com tantos livros lançados, Agatha Christie tem seus altos e baixos. Não que seus livros desapontem os leitores, mas enquanto alguns são muito simples e rápidos, outros são complexos, eletrizantes e geniais. É o caso dos meus favoritos: O Caso dos Dez Negrinhos, Assassinato no Expresso do Oriente e A Casa Torta. Livros que me surpreenderam e me encantaram do início ao fim, e fizeram com que eu me apaixonasse pela mente brilhante de Agatha Christie.

Um Passe de Mágica, lançado em 1952, não chega a ser um dos melhores livros da autora. No entanto, com tantos meses longe de suas histórias, aproveitei a leitura o máximo possível e me encantei como sempre. É uma obra dentro dos moldes e em meio a uma fórmula fixa, separada basicamente em introdução dos personagens, crime, depoimento dos suspeitos e o desfecho da história, com a descoberta do assassino.

O livro nos leva à detetive Miss Marple visitando a irmã de uma velha amiga de infância. Sem saber exatamente o motivo, a amiga sente algo estranho acontecendo na casa da irmã, Carrie Louise, e convence a velha senhora à visitar a casa da família. Quando Miss Marple chega ao local, encontra um cenário repleto de personagens estranhos. A casa foi transformada em um centro de reabilitação para jovens criminosos, e seus habitantes são totalmente despreocupados com qualquer tipo de problemas.

No momento em que as suspeitas se tornam concretas e é cometido um assassinato, o destino está traçado. Quem será o criminoso? Será Wally Hudd, marido estrangeiro da neta de Carrie Louise, e que parece tanto detestar o lugar? Jullie Bellever, governanta da casa e com um sentido extremamente protetor e autoritário com Carrie Louise? Ou seria Edgar Lawson, um garoto problemático e aparentemente violento? Como todos os bons livros da escritora, todos são suspeitos até o último segundo.

Um Passe de Mágica nos traz Miss Marple em sua quinta aventura, e este é o primeiro livro com a personagem que leio. Sem nenhum motivo aparente, sempre havia esbarrado apenas com as histórias do detetive Hercule Poirot. Posso dizer, com toda a certeza, que me encantei com a inteligência, a serenidade e, sobretudo, com a aparente inocência de Miss Marple, e pretendo conhecer outras histórias em que ela é a protagonista em breve.

Dizer que quero ler todos os livros da autora talvez seja por demais pretensioso, mas a vontade fica e vou tentando atingir a meta no desenrolar dos anos. A certeza é que cada livro de Agatha Christie sempre me acrescenta em algo, além de todas as vezes me impressionar e, principalmente, ser o porto seguro a que recorro sempre que preciso.

O mistério de A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra

A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra, de Robin Sloan, é o tipo de livro que parece preencher todos os requisitos básicos para uma boa e velha história tradicional. Podemos perceber o personagem principal, bem humorado e divertido contando sua história; os personagens secundários que, no desenrolar da narrativa, apresentam papéis importantes e são um divertimento a parte; e o enredo com uma pitada de originalidade, com boas cenas de humor, aventura, mistério e até mesmo suspense, para prender a atenção do leitor. É um livro que não decepciona por estar sempre em um padrão certo, mas é exatamente este fato o que incomoda um pouco durante a narrativa.

Em sua estreia no mundo da literatura, o autor parece não querer se arriscar demais e nem tramar nada muito complexo. A história criada é simples, certa, linear e correta. Não é algo ruim, mas o resultado não é extraordinário, e sim, equilibrado e estável. Um livro merece, e muito, estar além de adjetivos sinônimos à "regularidade". A leitura não cansa pois não chega a ser ruim, mas também não surpreende por não conter grandes reviravoltas. Mas convenhamos: leitura leve e clichê tem seus momentos, e A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra acaba se mostrando uma leitura bastante agradável.

O livro conta a história de Clay Jannon, um jovem web designer formado e sem emprego, em meio a crise econômica dos Estados Unidos. Na falta de espaço em seu ramo no mercado de trabalho, começa a trabalhar na misteriosa Livraria do Mr. Penumbra. Com clientes estranhos surgindo para pegar livros em código na madrugada, Clay começa a tentar desvendar o mistério do local com a tecnologia que possui em mãos. A partir daí, é apresentado a uma série de novas aventuras, com sociedades secretas, gênios da tipografia, tesouros perdidos, promessas de vida eterna e personagens para lá de sinistros em seu caminho.

O livro possui méritos próprios o suficiente para não ser uma leitura que seja passada em branco. Sim, o leitor não precisa esperar muito: é clichê e tudo o que se espera basicamente é realizado. Mas entre os livros normais e previsíveis que podemos encontrar todos os dias em estantes de livrarias, este talvez seja um dos mais legais para serem lidos. Um dos melhores pontos é o tema de A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra. A princípio, uma narrativa com bibliotecas antigas, passado misterioso e livros sinistros ao lado de tecnologia, inovação do futuro e Google, parecia uma combinação improvável, e fiquei com a sensação de que o autor estava cometendo um erro grave. Mas com o desenrolar das páginas, surge uma história divertida, bem feita e palpável. A união de passado e futuro, assim como deve ser a humanidade.

Outro tema extremamente interessante na obra é a tipografia. Clay é formado em design, e a arte da tipografia tem importância crucial na história, integrando todo o mistério por trás da sociedade secreta da qual Mr. Penumbra faz parte. Talvez quem não conheça o assunto fique um pouco perdido no início da trama, mas com o tempo se inteira totalmente da questão. A tipografia é basicamente a arte da criação dos caracteres de um texto, ou seja, a fonte que uso nesse blog ou a que está nas páginas do livro. É um assunto que chama a atenção por seu caráter antigo, e é interessante saber um pouco mais da história do tipógrafo Aldus Manutius, que realmente existiu e é peça chave no livro.

Mesmo com um fim claro e previsível desde o início da leitura, A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra apresenta uma narrativa competente. A linearidade do livro é algo que atrai, com a história sendo montada como um grande Lego, em que você sabe como vai ficar no fim, mas é mais do que curioso ver o processo de montagem. Entre o passado obscuro e o brilho do presente, a leitura é uma mistura de cores, de épocas e de emoções. Um livro leve, divertido e para ser lido em um momento ocioso e de descontração.

A Pérola: Palavras em cadência de Steinbeck

A principal proposta firmada por mim neste blog é a de levar obras pelas quais me interesso e que acho dignas de serem mostradas a quem passa por aqui. Mas levar filmes e livros às pessoas nem sempre é fácil como aparenta ser. Ao falar muito de determinado livro, posso estar pecando por falar demais, ou contar a história de um filme pode estraga-lo para quem vai assistir depois. Para escrever críticas e resenhas é preciso saber dosar o que se fala, mas a verdade é que coisas boas devem ser mostradas para serem apreciadas.

Encontrei A Pérola, de John Steinbeck, sem saber nada a respeito do livro, de sua história e pouco conhecendo sobre o autor. O que mais me interessou foi descobrir que Steinbeck escreveu também O Curto Reinado de Pepino IV, um livro que li anos atrás, de uma simplicidade tão encantadora que eu precisava tentar desvendar A Pérola para descobrir o que o livro continha em suas páginas amareladas. Em meio ao desconhecido, a história se desenrolou em minha frente sem nenhuma expectativa para ser saciada, e muito menos sem ilusões para serem desfeitas. Foi uma surpresa incrível.

Eu poderia dizer muita coisa, mas o livro é pequeno demais para ser estragado com sinopses prévias. Posso dizer que o livro é sobre um homem pobre, Kino, vivendo em sua cabana de paus com sua mulher, Juana, e seu filho bebê, Coyotito. Um livro sobre canções que ecoam dentro das pessoas, que na maior parte pouco são percebidas, mas que Kino as enumera e as sente dentro de seu ser. São canções da família, quando estar perto das pessoas que se ama é o mais importante; canções da vida, dessa vida cotidiana tão sem sentido, mas que as pessoas vivem e dançam a seu sabor; e uma canção sobre uma pérola, a maior pérola jamais vista naquele lugar. E no momento em que Kino encontra a pérola, ele se torna rico em sonhos, e os desejos explodem dentro de si. Mas ter sonhos, e o simples fato de ter algo, não é algo bem visto em meio à pobreza. E o homem pobre percebe que o mundo em que sempre viveu se transforma para sempre quando a grande pérola é encontrada.

A Pérola é um livro que aparenta ser pequeno e simples, mas que esconde uma complexidade tão ferrenha que encanta da primeira até a última página durante a leitura. Por trás de páginas escassas e uma história aparentemente banal, apresenta uma realidade absurda, em que a sociedade é esmiuçada pouco a pouco como nenhum autor atual consegue fazer. As injustiças, a crueldade, a riqueza de poucos e a pobreza de muitos, são retratadas fielmente nesta obra da década de 40, mas que é algo tão comum na atualidade. Uma história que aconteceu no passado, que acontece hoje em dia e que continuará a perdurar enquanto o mundo for mundo.

É um livro de coisas não ditas, cheio de silêncios. Kino e Juana pouco se falam, levantam com o sol e o simples olhar já é o suficiente para se entenderem durante todo o dia. Não é assim o amor? Quando as pessoas se amam, elas não precisam dizer nada. Elas estão perto demais, seus corações se encontram tão próximos que não precisam proferir palavras, pois o silêncio basta. No silêncio ecoam palavras suficientes para os corações que se encontram ligados.

A grande pérola exorta o melhor e o pior que existe dentro das pessoas. As pérolas são os sonhos, o que de melhor existe na humanidade. São os sonhos criados, os sonhos desfeitos, os sonhos acalentados durante anos, às vezes impossíveis, mas que são reais a partir do momento em que são concebidos na mente. Mas a pérola também desperta a inveja, a cobiça e a maldade. A pérola mostra a humanidade em sua forma mais brutal.

A escolha de palavras de Steinbeck é fascinante, e o autor apresenta uma história de cadência própria. Soa quase como uma música, uma canção solta pelo vento. São personagens reais, em uma história cruel, mas de encanto surpreendente. É um linguagem simples, mas ao mesmo tempo cheia de segredos, em que no momento em que tudo que está escrito é percebido e digerido, os leitores buscam por mais, mais significados em meio ás palavras íntimas e ao sigilo profundo.

John Steinbeck, além de A Pérola e O Curto Reinado de Pepino IV, é autor de outras obras de fama mundial, como Ratos e Homens e As Vinhas da Ira, ganhador do Prêmio Pulitzer de Literatura. O autor também ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1962. Um escritor imortal que merece ser lido e apreciado, pois cada palavra de sua autoria é um fascínio a parte. Um autor de palavras que encantam do início ao fim.

Uma decepção ballardiana


Lançado há quase 30 anos, o filme O Império do Sol, de Steven Spielberg, marcou o âmbito dramático da Segunda Guerra Mundial, sobretudo pela fantástica atuação do jovem Christian Bale. Considerando que esbarrei com o filme há vários anos atrás, pouco me lembro de seu enredo atualmente. Ainda assim, algumas cenas marcaram de forma intensa minha infância, fazendo com que guardasse alguns flashes em minha mente, os quais me envolveram e chocaram durante muito tempo. Dentre eles, posso compartilhar especialmente a cena de um jovem garoto se perdendo dos pais em meio a uma multidão que fugia desesperada, e esse mesmo garoto, anos depois, tentando exorcizar a imagem do rosto dos pais em sua mente, memória que ia perdendo pouco a pouco. 

Tais flashes, desconexos e sem sentido em meus pensamentos, viram a oportunidade de ordenação quando me deparei com o livro que deu origem ao filme, obra de J. G. Ballard. O que percebi durante a leitura, porém, foi algo completamente diferente. Minhas lembranças foram destruídas durante todo o desenrolar do livro, gerando apenas uma grande decepção e uma certeza clara: O Império do Sol mais promete do que cumpre.

A obra nos apresenta Jim, um garoto inglês de 11 anos que vive em meio ao luxo e a opulência junto a seus pais. O cenário é Xangai, e o ano, 1941, com a Segunda Guerra já declarada e uma China rodeada por conflitos e pelo medo constante. Porém, nada prepara Jim e sua família para o grande ataque japonês que viria a seguir, o que levou ao trancafiamento de chineses e estrangeiros em campos de concentração. Perdido sozinho em meio ao mundo em guerra, o jovem Jim inicia sua própria luta pela sobrevivência, marcada pela eterna busca pelos pais no território devastado. 

A história de J. G. Ballard, como anunciada na contracapa do livro, é em grande parte autobiográfica. O autor e sua família de fato vivenciaram os escuros anos da Segunda Guerra Mundial na China, sendo prisioneiros dos cruéis campos de concentração do exército japonês. Mas o que talvez conservasse o objetivo de se apresentar como um relato do tempo de Guerra e memórias do sofrimento, nada mais são do que palavras em grande parte sem emoção rodeadas pela monotonia. Um relato frio da crueldade, extremamente descritivo e que não me chamou a atenção em momento algum.

A escrita de Ballard não se concentra em nenhum ponto aparente. Não é uma escrita simples e inocente, o que seria se acompanhasse a visão de Jim, mas também não é algo profundo e complexo, como seria um livro abordando o intrincado cenário mortal da Guerra. São palavras soltas pelas páginas que pouco me despertaram o interesse, e quase nunca fizeram com que me sentisse envolvido pela história.

Jim, em suas andanças pelas cidade chinesas, depara-se constantemente com as maiores atrocidades possíveis, entre a guerra, a fome e o desespero. Porém, nenhuma de tais atrocidades parece levantar grandes questionamentos emocionais no garoto. Ao lado de descrições frias sobre a morte e o sofrimento, acompanhadas por relatos sem grande pertubação de corpos espalhados por campos abertos, o que é descrito com emoção no livro, e o que mais desperta o fascínio de Jim, são aviões. Aviões dos mais diversos tamanhos e modelos, descritos nas mais perfeitas condições, mas que em mentes leigas no assunto, como é a minha, nada significam.

Os personagens secundários pouco acrescentam algo à história. Basie, companheiro de prisão de Jim, talvez seja o de maior destaque, mas que em momento algum chega a ser cativante ou um personagem envolvente. Por qualquer motivo deixa o jovem de lado, e suas aparições na obra não desenvolvem tramas interessantes. A Sra. Vincent, mulher que tanto fascina Jim no campo de concentração de Lunghua, quase nenhuma fala possui durante toda a obra. Talvez o Dr. Ransome, médico do campo de prisioneiros, seja um dos personagens que mais chamam a atenção, mas que tampouco aparece em capítulos frequentes. Em sua maior parte, são esses os personagens de maior importância na obra, mas que pouco significam no desenrolar das páginas.

Surpreendido pela pouca, ou nenhuma fama, de O Império do Sol, mesmo com o filme tão aclamado por crítica e público até os dias de hoje, ao término da leitura percebi que a incógnita literária nada mais é do que justificada. Um livro desinteressante, com falta de ação e excesso de descrições, em meio a uma Guerra em que aviões despertam mais a atenção do que mortos, a história pouco atrai o leitor. Jim é um garoto apático e nada mais, o que leva aos leitores tal indiferença, fazendo com os olhos percorram as palavras mas nada se sinta. O Império do Sol está entre as poucas obras literárias em que as adaptações cinematográficas conseguem atingir a verdadeira qualidade da história, mas apenas nas telas. Mais vale ver a estreia de Christian Bale na película de Spielberg, do que a escrita pouco inspirada de J. G. Ballard.

O Dia do Curinga

Diversas vezes já me perguntei o que faz um livro ser realmente especial. Esta é a grande questão para todos os leitores, não? Percebi que os melhores não são aqueles escritos por um autor famoso, nem os que possuem capas chamativas e atraentes, e nem mesmo os orlados por títulos interessantes. O que, acima de tudo, faz com que um livro seja realmente especial e único, é o modo como a barreira de ficção e realidade é quebrada durante a leitura. 

Mas não apenas isso. É também seu modo de tocar nossa alma e nosso coração de uma maneira tão singular, tão incrível, que não esquecemos jamais. O Dia do Curinga, além de ser escrito por um grande autor, ter uma capa chamativa e um título mais do que interessante, é capaz de tocar fundo na vida de todos os leitores. Posso dizer com toda a certeza que meu modo de ver o mundo e as pessoas nunca mais será o mesmo após tê-lo lido.

O livro conta a história de Hans-Thomas, um garoto de doze anos que se mostra extremamente inteligente e um tanto sonhador. Junto de seu pai, filósofo e beberrão, cruza a Europa em um carro vermelho rumo à Grécia, onde espera encontrar sua mãe, que havia se mudado para o país há muitos anos querendo se encontrar. No caminho, porém, se depara com um estranho anão das mãos geladas que lhe dá uma pequena lupa de presente. 

A princípio, tal objeto parecia ser inútil para Hans-Thomas. Mas após um pequeno desvio de rota, o garoto descobre seu uso: ler um livro minúsculo achado dentro de um pão. Um livro que lhe permite conhecer uma linhagem de padeiros, peixes coloridos, cartas de baralho, bebidas maravilhosas, uma ilha misteriosa e claro, o dia do curinga. Uma história tão fascinante que muda não apenas a vida de Hans-Thomas, mas também de nós leitores.

O mundo criado por Jostein Gaarder nesta obra é quase impossível de se esquecer. Ao acompanhar a história, somos abordados por questões filosóficos como "de onde viemos?", "quem somos?", "por que estamos aqui?". Aliás, o tema filosófico é ponto chave do autor, mas em O Dia do Curinga é tratado de maneira mais moderada. Em O Mundo de Sofia, sua obra mais famosa, confesso que fiquei um tanto entediado com tanta filosofia em um só romance. Não desmerecendo o livro, é claro, pois é também outro que fascina e envolve, mas a história tem filosofia demais. Em o Dia do Curinga, porém, a filosofia está bem ali, sendo abordada a cada capítulo, mas em um plano secundário. Tem um grande papel, mas não torna a leitura cansativa em nenhum momento. Com isso, o enredo promete maravilhar qualquer tipo de leitor.

Mais do que um simples e pequeno livro, O Dia do Curinga se mostrou uma obra complexa e de narrativa tão diferenciada que desejei que nunca tivesse fim. Além de transmitir a mensagem de que nossa imaginação pode ser responsável por mudanças, fiquei tentado também a dar personalidade a cartas de baralho, como acontece no livro. Loucura ou não, tenho certeza que todos que leram sentiram a mesma coisa. Ou será que apenas eu acredito que cartas de baralho são objetos além do que pensamos, e sou o único que me considero um curinga?

Fantasmas do Século XX

Joe Hill se tornou famoso logo no lançamento de seu primeiro livro, A Estrada da Noite, uma ficção de terror cuja história atormentou muita gente. Com O Pacto, mostrou ainda mais seu poder de aterrorizar os leitores, pois seu crescimento literário foi visível em relação ao primeiro livro. Já com Fantasmas do Século XX, livro que reúne uma coletânea de contos, o gênero terror não é o ponto principal. O que predomina em todas as páginas é sua capacidade de envolver e fascinar quem lê, mesmo o sobrenatural e o suspense passearem por todos os cantos. Quem começa a ler querendo se assustar, pode não gostar. Mas quem tem a mente aberta e apenas o desejo de ler um bom livro, vai se emocionar e se envolver de uma maneira tão única pelos personagens que será difícil de esquecer.

Quase todos os livros de contos seguem uma regra, e a maioria tem que concordar comigo: uma intercalação entre histórias excelentes, outras medianas e algumas nem tão boas assim. Fantasmas do Século XX, porém, foge totalmente dessa regra. Dos dezessete contos que compõem o livro, todos são tão bem narrados e bem escritos que não deixam a desejar em nenhum momento. É claro que alguns são melhores que outros, a isso é impossível escapar, mas até mesmo os contos que não são tão bons quantos os melhores são fascinantes o bastante para que não nos cansemos durante o desenrolar da história. E em nenhum momento encontrei características em um dos contos que me faria dizer algo como: "Se não fosse por esse conto, o livro seria perfeito". Todas as histórias são perfeitas de maneiras próprias, o que acaba gerando um livro único.

Gostaria de fazer um pequeno resumo de cada conto, mas como são dezessete, a resenha não teria fim. Por isso faço pequenas observações dos que mais gostei:

"O melhor do novo horror" tem um ar um tanto quanto pastelão, mas cria bem seu clima como ponto de partida para todos os outros contos que vieram a seguir. "Fantasmas do século XX", conto que dá nome ao livro, nos leva a um cinema assombrado por uma garota, longe de aterrorizar, mas perto o bastante para gelar a espinha. "Pop Art" me deixa quase sem palavras. Melancólico e triste, nos apresenta a um personagem e uma história tão fascinantes que faz de todo o livro imperdível de ser lido. "Último Suspiro" é o conto mais criativo, trazendo um estranho museu que expõem sua coleção de últimos suspiros de personalidades famosas, como Edgar Alan Poe e Roald Dahl. "A capa" sem dúvida fica entre as melhores: um homem capaz de voar ao colocar sua antiga capa de criança, tão bem narrado que parece quase real e traz um final um tanto inesperado. "A máscara do meu pai" e "Internação voluntária" são tão perturbadores que ao acabarmos a leitura sentimos até um certo alívio. Alívio de tudo ter acabado, e alívio por nada daquilo ser real.

Ao ler este livro, muitos devem estar pensando que Joe Hill fará como o pai, Stephen King: escreverá livros de terror, mas também outros livros onde o terror passa bem longe e o drama é mais predominante. Mas vale ressaltar que os contos de Fantasmas do Século XX foram escritos em revistas entre os anos de 1999 e 2005, bem antes de A Estrada da Noite e O Pacto serem escritos. Se ele depois irá escrever livros como este, isso é incerto. Mas podemos ter a certeza de que o autor nasceu no suspense e no drama, e não no horror como o pai.

Mais do que um simples escritor, Joe Hill chega à excelência. Seu melhor feito, com certeza, é terminar a maioria dos contos não com um ponto final, e sim, com um ponto de interrogação. Quem imagina e constrói os finais dos contos não é o autor, e sim, o leitor. E isso nos faz mais do que tudo partes integrantes da história e de toda a ação, aumentando ainda mais nossa melancolia nos contos dramáticos e nosso pânico nos contos angustiantes. Se quer participar dessa maneira de um livro, leia Fantasmas do Século XX. Sua visão de livros de contos nunca mais será a mesma.

O Herói Perdido

Para que um autor faça sucesso, não é necessário muita coisa. Com a febre de temas sobrenaturais que vem ocorrendo atualmente, basta criar um livro com vampiros, bruxos e lobisomens que a fama será quase certa. Mas escrever uma grande história, com personalidades fortes e que atuam em aventuras épicas, em um livro que será marcante para toda uma geração, isso é para poucos. 

Pois foi o que Rick Riordan conseguiu fazer ao criar a série Percy Jackson e os Olimpianos, uma das séries mais originais e criativas lançadas nos últimos tempos. Porém, grandes autores devem saber usar bem seus dons de escrita. Podem continuar escrevendo outros livros de mesma maneira ou até maior genialidade, ou a fama pode lhes subir a cabeça e resultar numa composição de histórias nem tão boas assim. Por estranho que pareça, Rick Riordan seguiu por estes dois caminhos.

Por um lado, temos "A Pirâmide Vermelha", em que Riordan mostrou claramente o que acontece quando um autor é atingido pela fama repentina. Um livro com uma história sem nem um pouco de emoção, com personagens que deixam a desejar e um humor que tenta fazer rir, mas não consegue em momento algum. Poderíamos dizer até que é plágio de "O Ladrão de Raios" se os dois livros não fossem escritos pelo mesmo autor. O único consolo é imaginar que a continuação será melhor, pois se não for, não há nada que salve "As Crônicas dos Kane". 

Por outro lado, podemos ver "O Herói Perdido", que felizmente não se mostra uma cópia malfeita dos outros livros do autor como era de se esperar. Vários pontos se apresentam bem semelhantes, é verdade, mas o livro se mostra como uma continuação da série Percy Jackson. Uma continuação que, sem dúvida, não deixa nem um pouco a desejar.

Ambientado no Acampamento Meio-Sangue, o mesmo da série Percy Jackson, a história de "O Herói Perdido" se passa poucos meses após a grande guerra contra os Titãs, que teve fim em "O Último Olimpiano". Seu ponto de partida é uma profecia terrível que irá repercutir na vida de todos os semideuses:

Sete meio-sangues responderão ao chamado.
Em tempestade ou fogo, o mundo terá acabado.
Um juramento a manter com um alento final,
E inimigos com armas às Portas da Morte afinal.

Para quem não esperava encontrar alguém tão engraçado e carismático quanto Percy, aqui podemos ver três personagens que dividem a cena: Jason, a coragem e a força; Piper, a beleza e a persuasão; e Leo, o humor e o cérebro. Revezando-se durante todo o livro em seus pontos de vistas, ao final da última página sentimos um leve desconforto por abandoná-los, pois são personagens extremamente distintos entre si, mas que se completam e que deixam saudades. Além deles, antigos personagens, como Annabeth, Thalia e Quíron, marcam presença, e outros como Festus e o Treinador Hedge, chegam para completar a turma.

O número de personagens das antigas lendas gregas é vasto, mas um dia estes seres mitológicos iria se esgotar, pois não há quantidade suficiente que suporte uma série inteira de livros sem repeti-los. Mas Riordan, mesmo depois de abranger deuses, monstros, heróis, seres e espíritos da natureza, dentre vários outros, ainda consegue se superar. Embora os personagens mais famosos da mitologia grega tenham aparecido durante as aventuras de Percy, desta vez quem ganha a cena são alguns não tão conhecidos, como os deusos do vento, além de importantes mortais da antiguidade que há muito estavam mortos, mas agora voltaram, como Rei Midas e Medeia, trazendo as melhores cenas de todo o livro. E para melhorar ainda mais, podemos ver outro lado dos deuses. Seus lados romanos são mais abordados, e se deuses gregos e romanos pareciam ser semelhantes no início, no fim as diferenças são incontáveis. Velhos deuses, que ainda não haviam aparecido muito, ganham seu espaço, como Hera e Afrodite.

Enfim, "O Herói Perdido" não erra em momento algum. A linha de Percy Jackson é mantida, isso não há dúvida, mas tudo é tão bem narrado e cheio e ação que não há como não gostar. A aparição de três personagens principais fez com que o livro ficasse mais do que fascinante, apresentando também mistério, detalhes inúmeros e um pouco de complexidade, pois são três histórias para serem contadas. Jason e sua falta de memória, Piper e seus sonhos sinistros, e Leo e sua Tía Callida, garantiram um enredo imensamente sedutor e difícil de largar. Mais uma grande série de Rick Riordan, que começa de maneira formidável e parece contar com ainda mais batalhas, lutas e monstros de peso pela frente. Que venha os próximos volumes, com todas as tristezas e saudades que irão deixar!

Quem é Você, Alasca?

Desde os primeiros instantes, "Quem é Você, Alasca?" já dava mostras de ser um livro singular. Para começo de conversa, sua capa não me agradou muito, ao contrário do que sempre acontece quando vejo um bom livro. O que me fez apaixonar por ele, na verdade, foi sua sinopse, tão insinuante e tão sugestiva, que para mim teve um gosto a mais do que sem dúvida teve para as outras pessoas que a leram. Assim que fui seduzido por ela, minha sorte estava traçada e percebi um grande detalhe: este seria o melhor livro de toda a minha vida. Pois nunca estive tão certo em relação a alguma coisa.

O livro narra a história e Miles Halter, um garoto de 16 anos sem amigos, com uma vida extremamente sem graça e que é apaixonado por últimas palavras de personagens famosos. Quando descobre as últimas palavras do poeta François Rabelais ("Saio em busca de um Grande Talvez"), decide ir atrás deste Grande Talvez e se muda para um colégio interno. No local irá descobrir a amizade, o amor e o desespero ao lado de seus amigos Alasca e General, e passará os melhores, os piores e os mais marcantes momentos de sua vida.

Não tenho vergonha de dizer que cheguei a derramar algumas lágrimas ao ler o livro. Acredito que isto é algo totalmente comum para quem o ler. Mas não chorei do livro, e sim, com o livro. Existem muitas diferenças entre as palavras 'do' e 'com', diferenças nas quais foram de extrema importância durante minha leitura. Não chorei pelas coisas que vi no livro, e sim, chorei relacionando as coisas do livro com o mundo. Chorei pelas injustiças, pelas tristezas e por toda a crueldade existente na vida. Chorei por tudo que foi e pelo que será, pelo que é e pelo que já era. Mas acima de tudo, chorei pelo que não foi e pelo que nunca será.

Não preciso dizer que "Quem é Você, Alasca?" se tornou o melhor e mais emocionante livro que li em toda a minha vida, pois minhas lágrimas já dizem tudo. O tempo pode passar, os anos podem me corroer, meus outros livros podem se desfazer. Mas meu exemplar de "Quem é Você, Alasca?" será guardado eternamente junto a meus tesouros mais preciosos, como algo raro e particular que tenho o desejo de esconder do resto do mundo.

Miles Halter é tudo aquilo que eu era, tudo aquilo que eu sou e tudo aquilo que eu quero ser. Um personagem nunca tocou tão profundamente em mim, e nenhum outro se assemelhou tanto a mim quanto ele. É claro que não sou tão solitário, mas seus pensamentos, suas ações, seu modo de ver o mundo, tudo é exatamente como eu sou. Com um personagem assim, o livro se tornou mais do que marcante. Se tornou eterno. Quanto a Alasca, não preciso dizer nada. Como Miles diz, "... se as pessoas fossem chuva, eu era a garoa e ela, o furacão." Pois deixemos que o furacão continue em seu turbilhão sem fim, pois sua força é tanta que nem é preciso tecer comentários. O único fato que tenho a dizer é que Alasca é a personagem mais fascinante de todos os livros que já li. Ao lado de Gordo e General, será lembrada para sempre.

John Green

Para finalizar o sentimentalismo barato, "Quem é Você, Alasca?" não é como os demais livros que lemos no dia a dia. É um livro para se emocionar, se divertir, se aventurar e até temer, mas sobretudo, um livro para filosofar, refletir e pensar sobre a vida. Uma visão singela daquilo que é o amor, a amizade e a vida, nas mãos de um dos maiores escritores que existem hoje em dia, John Green. Leia e se emocione como eu.

Haroun e o Mar de Histórias

A maioria das pessoas, no que se refere à literatura, está interessada apenas nos grandes lançamentos que surgem todos os anos. Harry Potter, Crepúsculo, Percy Jackson, Eragon, dentre vários outros, são praticamente os únicos livros que a maior parte das pessoas chegou a ler algum dia. E quem já leu outros livros além desses, foram de autores praticamente iguais e histórias extremamente parecidas. Por isso, é sempre bom inovar e estarmos sempre em busca de novos livros e novos autores. E com este pensamento, de buscar algo original e surpreendente, eu lhes apresento "Haroun e o Mar de Histórias", que passei a considerar um dos melhores livros de fantasia já criados.

Este é um livro indiano escrito pelo autor Salman Rushdie. Provavelmente você até se assustou com seu nome e nunca ouviu falar dele, mas na verdade, Rushdie não é um autor tão desconhecido assim. Ele já escreveu alguns livro que fizeram sucesso internacional, como "A Feiticeira de Florença", "Os Versos Satânicos" e "Os Filhos da Meia-Noite". Aliás, quem já leu um livro indiano levante a mão. Ninguém? Pois é, encontrar alguém que já o tenha feito é bastante raro hoje em dia. Eu, inclusive, era um desses antes deste livro. Mas felizmente o encontrei e vocês agora tem a chance de lê-lo, pois minha dica está sendo dada.

Vamos ao que interessa: a história do livro. "Haroun e o Mar de Histórias" nos leva para uma pequena cidade sem nome, no país de Alefbey, em que tudo é triste e melancólico, e onde as pessoas comem apenas peixes peixosos. Na verdade, nem tudo é triste nesta cidade. A família de Rashid Khalifa, composta por ele, sua esposa Soraya e seu filho Haroun, é conhecida por sua grande felicidade em toda esta metrópole infeliz. Rashid é o grande Xá do Blá-Blá-Blá, ou o Mar de Ideias, e suas histórias são conhecidas e necessitadas em todo o país e além. Soraya tem uma voz linda, e está sempre cantando em casa. E Haroun, além de ser o herói do livro, está sempre pronto para aprender novas coisas. Tudo ia perfeitamente bem até o dia em que Soraya vai embora e Rashid perde as ideias para suas histórias. Com isso, Haroun, junto de novos amigos, terá de viver uma grande aventura e lutar contra malignas forças da escuridão e do silêncio para trazer as histórias de seu pai de volta e fazer com que tudo volte a ser como antes.

Sabe aquela velha frase, "viajei com tal livro"? Pois bem, com "Haroun e o Mar de Histórias", você deve levar isso a sério. Ao abrir a primeira página, você literalmente entra em seu mundo mágico e não quer mais sair. Quando Haroun sobe no Gavião-Avião e começa suas aventuras, você se sente junto dele, segurando fortemente as penas do pássaro e sentindo o vento em seu rosto. O mundo a sua volta some, e à sua frente você vê apenas a Cidade de Gup e seus habitantes inesquecíveis. Aliás, personagens tão incríveis quanto desse livro será difícil encontrar igual. Minimamente traçados e descritos, são tão carismáticos que ao acabar de ler o livro, me senti triste por terminar a última página e perceber que nunca os encontraria de verdade. Haroun, Rashid, o Gênio da Água, o Gavião-Avião, o Jardineiro Flutuante, os Peixes de Mil Bocas, Tagarela, dentre vários outros, estarão sempre em minha mente como modelos de personagens ideais.

O jeito fantasioso de Rushdie escrever o livro me lembrou imensamente o modo como Diana Wynne Jones narra suas histórias. Para quem não sabe, entre as obras da autora estão "O Castelo Animado", "O Castelo no Ar" e a série "Os Mundos de Crestomanci", que descobri há pouco tempo mas já se tornou referência de livros de fantasia para mim. Por isso, comparar Salman Rushdie com Diana Wynne Jones, que praticamente idolatro, é um elogio dos grandes. O melhor de tudo é que "Haroun e o Mar de Histórias" não é apenas um livro de fantasia. Mistura também humor, ação, aventura, um pouco de romance e até pitadas de suspense e terror. Quando lemos, percebemos que não é um livro infantil como aparenta, e sim, se aproxima mais de um livro fantasioso para adultos, e que facilmente agrada a pessoas de todas as idades.

"Haroun e o Mar de Histórias" foi escrito em 1990 e, sinceramente, até agora não entendo o por que da obra não ter feito grande sucesso. Talvez seja pelo fato do autor não ser muito conhecido, ou quem sabe porque é um livro indiano. Vai saber. O que importa é se depois dessa resenha vocês irão ou não se interessar pelo livro. Eu digo com sinceridade: vale muito a pena ler. A versão que li e que aparece na foto é da Companhia de Bolso, que sai por um preço super em conta. O livro está apenas lá, te esperando na prateleira de alguma livraria. É só você comprar, abrir suas páginas e entrar no mundo mágico de Haroun e em todo o seu mar de histórias.

Salman Rushdie