Um dia o garoto percebeu
que nada poderia fazer
em relação à tristeza
que imperava em seu peito.

Não importava o quanto chorasse
nem gritasse em silêncio
afinal, ele não possuía voz
e seu grito não emitia barulho.


Nada significavam as alegrias
breves, rápidas e passageiras
a tristeza estava à espreita
com seus olhos negros e certeiros.

Nem valor algum possuía
as frases feitas dos amigos
de que a vida seria bela
e de que tudo iria melhorar.

Após duas décadas de cansaço
o corpo se cansa
o corpo reclama
o corpo pede ajuda.

E o garoto então percebeu
que existem duas pessoas no mundo
as que nascem para viver
e as que nascem para sofrer

E ele com certeza
estava no segundo grupo
pois sofrer era seu lema
mesmo que não quisesse.

Em um dia de semana
foi à aula e nada conseguia ouvir
pois o barulho de sua mente
era maior do que tudo.

O professor abria a boca
e nada saía
seus amigos falavam
e ele nada conseguia ouvir

E o garoto decidiu
fugir de todo o caos
pois como dizem por aí:
os incomodados que se retirem

Ele foi para casa
em busca das flores
as vermelhas pulsantes
até bonitas de se ver.

Quando resolveu ver as flores
elas caíram aos borbotões
aos seus pés
em seus braços.

Eram vermelhas
vermelhas
vermelhas
vermelhas

Doíam como fogo
doíam como a alegria
que não mais iria existir
e que parecia nunca ter existido.

Entre flores vermelhas
o garoto deitou-se na cama
incômoda e sem graça
e sorriu.

Sorriu porque em seu íntimo
ele era um garoto feliz
mas o mundo sugou tudo
felicidade, cor, graça.

Em seu átimo de infinito
veio o impulso mais forte
a sagaz selvageria
o instinto escondido.

Era o sorriso
de um pequeno garoto 
cujo único desejo
era apenas sorrir.

Se a vida tomou seu sorriso
ele estaria entre as flores 
com o maior dos sorrisos
a sorrir até o fim.

Pois ele era teimoso
cabeça-dura
chato pra caramba
e iria revidar toda a dor.

E não há dor maior
do que querer e não poder
do que desejar e não existir
do que sentir e não se satisfazer.

E na cama incômoda
os olhos do garoto
fecharam-se devagar
para não mais acordar.

Em sua mão um bilhetinho
escrito em código
que ninguém iria entender
continha tudo o que você leu até aqui.