Um orgasmo com “Elogio da Madrasta”

Certa vez, Kafka disse a um amigo: "No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo?”. Obras clichês nos confortam, mas sem aquelas que nos incomodam e nos fazem pensar, perdem seu caráter primordial. Mario Vargas Llosa, escritor peruano ganhador do Nobel de Literatura, convida os leitores sempre ao raciocínio e à reflexão, com livros como “Travessuras da Menina Má” e “Pantaleão e as Visitadoras”. Já em “Elogio da Madrasta”, o autor mescla o pensamento crítico ao incômodo, causando asco, assombro e, principalmente, prazer.

O terror ausente em “O Menino que Desenhava Monstros”

Para um bom escritor de histórias de terror, meia palavra basta para assustar os leitores. Quando a narrativa une crianças, monstros e pesadelos infantis, em um cenário paradisíaco com casas de praia, neve abundante e segredos à espreita, a escrita encontra as peças certas para superar expectativas. Mas sem a condução adequada, esses elementos se perdem no desenrolar da narrativa e deixam de fazer sentido. “O Menino que Desenhava Monstros”, de Keith Donohue, é a prova de que histórias de terror não são tão fáceis de criar.

Em uma pequena cidade dos Estados Unidos, Jack Peter, conhecido como Jip, é um garoto de 10 anos diagnosticado com Síndrome de Asperger, o que o faz temer sair de casa e ter contato físico ou interagir com outras pessoas. Como revela o próprio título do livro, Jip aproveita seus dias desenhando monstros assustadores, mas a brincadeira não é tão inofensiva como é para outras crianças. Quando seres estranhos começam a rondar pela vizinhança, assemelhando-se às criaturas desenhadas por Jip, seus pais passam a desconfiar de que os esboços do filho podem não ser tão inocentes quanto aparentam.


O pessegueiro que dava maçãs

Era uma vez um pessegueiro, pessegueiro como todos os outros do mundo. Flores roxas, raízes curtas e uma grande satisfação por dar frutos. Tudo ia bem até o dia em que ouviu sobre o empoderamento arbóreo, decidindo então romper com as amarras das leis da natureza. Aquele pessegueiro queria ser livre para fazer o que quisesse, e em uma manhã de sábado começou a dar maçãs.

A primeira maçã nasceu a partir de uma flor azul-anil, tornando-se grande, vermelha e suculenta. Poderia ser a herdeira de uma prole brilhante, mas era a ovelha negra da família: sentia tanto horror de ser filha de um pessegueiro que dava maçãs que preferia a morte a estar ligada aos galhos maternos. Ao avistar uma lagarta subindo o tronco lentamente, ficou feliz pela possibilidade de ser devorada.

A Cidade Onde Envelheço

Duas mulheres, às margens de um lago de águas claras, discutem a saudade de casa e os desejos que queimam o peito como brasa em fogo. Naturais de Lisboa, elas vivem em Belo Horizonte, Minas Gerais, e se perguntam do que mais sentem falta. “Do mar”, diz uma delas. Entrar no mar quando quiser; deixar o sal cobrir o corpo; lamber os braços e sentir o gosto puro do sal; experimentar o sal por toda a carne. Entre as inúmeras preciosidades deixadas para trás, elas escolhem o mar: a imensidão, a exorbitância, o ritmo raivoso. Você entra nas águas e elas continuam em você. É como o lar, que não abandona os corações jamais.


O garoto no bar

Copos sujos e rachados, bancos altos de madeira e porções generosas de mandioca e torresmo. Assim era o bar onde encontrei o garoto de olhos tristes. Tímido e solitário, parecia pouco à vontade entre cervejas e conversas altas, mas substituiu a postura retraída por um olhar suave após poucos minutos de conversa.

– Eu nasci triste. Se não gostam, então que me curem de uma vez – explicou ele, sorrindo. A expressão era irônica, de quem sabia possuir uma tristeza sem remédio e de quem era um ladrão de frases cinematográficas. Achei melhor deixar passar que já havia escutado a frase em um filme francês desconhecido por aí.

O adeus doído

Caro amigo,

Hoje estou sozinho e não consigo ver para onde ir
As pessoas não estão por perto, não há palavras, não há nada
Eu estou sozinho

Espere

Eu estou sempre sozinho, não apenas hoje
Vamos parar com o otimismo barato
Ninguém se importa

Sim, sou eu

Caro amigo,
Estou deitado na cama e não sinto mais o vento. Passo as mãos em meus braços, fingindo ser outra pessoa, mas nenhum contato muda o fato de ser o vazio o único companheiro da pele.

Tracei bonitos sonhos em meus dias, pincelando emoções que nunca vivi e sempre almejei impacientemente. Esperei um sorriso que não existe, desejei o amparo que não mereço, busquei mãos que nunca poderei sentir. Estou cansado e estou indo embora.