O garoto no bar

Copos sujos e rachados, bancos altos de madeira e porções generosas de mandioca e torresmo. Assim era o bar onde encontrei o garoto de olhos tristes. Tímido e solitário, parecia pouco à vontade entre cervejas e conversas altas, mas substituiu a postura retraída por um olhar suave após poucos minutos de conversa.

– Eu nasci triste. Se não gostam, então que me curem de uma vez – explicou ele, sorrindo. A expressão era irônica, de quem sabia possuir uma tristeza sem remédio e de quem era um ladrão de frases cinematográficas. Achei melhor deixar passar que já havia escutado a frase em um filme francês desconhecido por aí.

O adeus doído

Caro amigo,

Hoje estou sozinho e não consigo ver para onde ir
As pessoas não estão por perto, não há palavras, não há nada
Eu estou sozinho

Espere

Eu estou sempre sozinho, não apenas hoje
Vamos parar com o otimismo barato
Ninguém se importa

Sim, sou eu

Caro amigo,
Estou deitado na cama e não sinto mais o vento. Passo as mãos em meus braços, fingindo ser outra pessoa, mas nenhum contato muda o fato de ser o vazio o único companheiro da pele.

Tracei bonitos sonhos em meus dias, pincelando emoções que nunca vivi e sempre almejei impacientemente. Esperei um sorriso que não existe, desejei o amparo que não mereço, busquei mãos que nunca poderei sentir. Estou cansado e estou indo embora.

Andanças fora de prazo

Quatro horas da tarde, o relógio apita. É hora de ir para casa. O garoto sai do trabalho e percebe que de todos os lugares no mundo, o único em que não gostaria de estar é em casa, assombrado por seus maiores medos. Embaixo da cama, um monstro de três metros de altura: a solidão. Sobre cada objeto, o sangue do herói: a amargura. Junto à janela, uma trilha sonora arrepiante: a tristeza.

O garoto lembra de seu filme de terror caseiro e suspira. Um daqueles suspiros longos, cansados, de dar dó. O colega pergunta se está estressado ou triste. “Não, é só dor de cabeça”, responde. Pega a mochila pesada, abaixa a cabeça e sai andando, com o peso do mundo nas costas.

Desentendimentos em preto e branco

Caro amigo,

Gostaria de dizer que os últimos dias estão sendo fáceis, mas eu estaria mentindo para você e para mim mesmo. Tento encontrar pistas para a aquarela do sentido, assim como resquícios para a furtiva sanidade, mas são aspectos da existência que fogem de minhas mãos. A solidão e o pessimismo pressionam meu interior, favorecendo dias penosos e sem sentido.

Mas o que são dias fáceis? Sinônimos da paz e da felicidade, fingidas e dissimuladas? Provável que não, como você há de concordar. Ainda assim, continuo sem saber ou entender, sobretudo graças à minha incapacidade de me expressar ou buscar a lucidez em outros seres humanos.


As maldições

No dia em que você nasceu, foi um dia como qualquer outro. Não houve festa, sinos badalando na igreja nem fila de presentes na porta de sua casa. Não importa se você pensa que foi um dia especial, várias pessoas nasceram no mesmo dia e não houve nada de notável em sua chegada ao mundo.

Na verdade, há um detalhe que nunca contaram para você, mas que assombra seus dias desde o início: você foi amaldiçoado. Devo admitir que isso sim é algo especial. Quantas pessoas você conhece que foram amaldiçoadas ao nascer?