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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A biblioteca dos meus pensamentos


Histórias, fatos e acontecimentos percorrem meus pensamentos. Percorrem, não, se chocam. Lembranças colidindo umas com as outras, junto a situações que se batem e episódios que se destroçam. Fecho os olhos e imagino minha mente... uma biblioteca enorme, cheia de estantes, galerias, corredores, poltronas confortáveis e livros, muitos livros. E perambulando pelos corredores, lá está eu. Não apenas um eu, mas vários eus, se assim posso dizer. E tamanha é a desordem de meus pensamentos que meus eus ali se mostram tresloucados. Correm de um lado para outro, trombando em estantes, se jogando em cima de livros, rasgando páginas e gritando. É tão assustador que estremeço.

Se pensar em uma biblioteca real sendo destruída deste modo já é tão angustiante, imaginar meu cérebro sendo tratado desta maneira por mim mesmo causa um peso no peito. Um peso tão grande que dói, dói de verdade. Mas assim como mágica, algo acontece. As bibliotecárias com quem convivi durante toda a minha vida aparecem em minhas lembranças. Rostos bondosos, olhares vibrantes e sorrisos cúmplices que apenas os amantes dos livros podem dar entre si. Mulheres prontas para organizar toda uma biblioteca, até mesmo uma biblioteca mental.

As bibliotecárias empurram a grande porta de entrada para o saguão, tão antiga e não usada que se mostra dura e quase impossível de abrir. Mas com muita força de vontade, mais vontade do que força, todas elas juntas abrem a porta. Meus eus correm de um lado para outro, tão fechados ao mundo que nada vêem, nada escutam, nada sentem.

A primeira a tomar uma atitude é a velha e gorducha bibliotecária de minha terna infância. Segue andando pelo corredor e segura o primeiro eu que encontra, aquele que derrubava livros com tamanha determinação e ferocidade que chegava a causar medo. Passa a mão nos cabelos daquele meu eu agora tão abobalhado, e dá um sorriso tão bondoso, tão encantador, tirado bem do fundo da alma e da graça, que meu eu pisca os olhos e sai como de um transe. Volta à sua atitude tranquila de sempre, sorri para a bibliotecária e começa, ajudado por senhora tão cortês, a arrumar os livros que segundos antes estava tão empenhado em derrubar.

Após isso, cada bibliotecária se dirige a um de meus eus para acalmá-los. Meu eu gritante se silencia com um abraço. Meu eu rasgador de livros interrompe seus atos com um leve sussurrar nos ouvidos. Meu eu chutador de poltronos para de imediato ao ouvir uma antiga canção. E assim, um por um, meus eus se acalmam todos, e ao lado das bibliotecárias, começam a arrumar a biblioteca. Juntam páginas, devolvem livros aos seus lugares, levantam cadeiras. Até que chega o momento em que a paz volta a reinar, e cada bibliotecária dá um sorriso puro de sentimento cumprido. E todos os meus eus que ali se encontram também sorriem. Na verdade não sorriem, gargalham. Batem palmas, assobiam.

Como que atraídos por tal barulho, rostos curiosos começam a espreitar pela porta, que havia sido deixada aberta. São rostos de pessoas amadas, deixadas de fora da biblioteca devido à tamanha algazarra que reinava por ali. Meus eus, tão educados como não poderiam deixar de ser, pegam pelas mãos cada uma daquelas pessoas e as levam para dentro. Mostram a elas os livros, os corredores, as poltronas confortáveis. E minha biblioteca, tão exclusivamente montada, vai ganhando aquele ar de aconchego, de morada, onde qualquer um pode ser bem-vindo.

E eu, o senhor supremo de toda aquela biblioteca, mantenho os olhos fechados e o sorriso nos lábios. Com uma mente mais sã, apenas escrevo, escrevo, escrevo...

domingo, 30 de outubro de 2011

O Dia do Curinga


Durante diversas vezes já me peguei perguntando o que faz um livro ser realmente especial. Esta é a grande questão para todos os leitores, não? Percebi que os melhores não são aqueles escritos por um autor famoso, nem os que possuem capas chamativas e atraentes, e nem mesmo os orlados por títulos interessantes. O que, acima de tudo, faz com que um livro seja realmente especial e único, é o modo como a barreira de ficção e realidade é quebrada durante a leitura. Mas não apenas isso. É também seu modo de tocar nossa alma e nosso coração de uma maneira tão singular, tão incrível, que não esquecemos jamais. O Dia do Curinga, além de ser escrito por um grande autor, ter uma capa chamativa e um título mais do que interessante, é capaz de tocar fundo na vida de todos os leitores. Posso dizer com toda a certeza que meu modo de ver o mundo e as pessoas nunca mais será o mesmo após tê-lo lido.

O livro conta a história de Hans-Thomas, um garoto de doze anos que se mostra extremamente inteligente e um tanto sonhador. Junto de seu pai, filósofo e beberrão, cruza a Europa em um carro vermelho rumo à Grécia, onde espera encontrar sua mãe, que havia se mudado para o país há muitos anos querendo se encontrar. No caminho, porém, encontra um estranho anão das mãos geladas que lhe dá uma pequena lupa de presente. A princípio, tal objeto parecia ser inútil para Hans-Thomas. Mas após um pequeno desvio de rota, o garoto descobre seu uso: ler um livro minúsculo achado dentro de um pão. Um livro que lhe permite saber sobre uma linhagem de padeiros, peixes coloridos, cartas de baralho, bebidas maravilhosas, uma ilha misteriosa e claro, o dia do curinga. Uma história tão fascinante que muda não apenas a vida de Hans-Thomas, mas também de nós leitores.

O mundo criado por Jostein Gaarder nesta obra é quase impossível de se esquecer. Junto de tal história incrível, somos abordados por questões filosóficos, como "de onde viemos?", "quem somos?", "por que estamos aqui?". Aliás, o tema filosófico é ponto chave do autor, mas em O Dia do Curinga é tratado de maneira mais moderada. Em O Mundo de Sofia, sua obra mais famosa, confesso que fiquei um tanto entediado com tanta filosofia em um romance só. Não desmerecendo o livro, é claro, pois é também outro que fascina e envolve. Mas a história tem filosofia demais. Em o Dia do Curinga, porém, o tema está bem ali, sendo abordado a cada capítulo, mas em um plano secundário. Tem um grande papel, é verdade, mas não torna a leitura cansativa em nenhum momento. Com isso, o enredo promete maravilhar qualquer tipo de leitor.

Enfim, mais do que um simples e pequeno livro, O Dia do Curinga se mostrou uma obra complexa e de narrativa tão ímpar que desejei que ele não tivesse um fim. Além de transmitir a mensagem de que nossa imaginação pode mudar e gerar muita coisa, fiquei tentado a também dar personalidade a cartas de baralho. Loucura ou não, tenho certeza que todos que leram sentiram a mesma coisa. Ou será que apenas eu acredito que cartas de baralho são objetos além do que pensamos, e sou o único que me considero um curinga?

terça-feira, 26 de julho de 2011

Fantasmas do Século XX


Joe Hill se tornou famoso logo no lançamento de seu primeiro livro, A Estrada da Noite, uma ficção de terror cuja história atormentou muita gente. Com O Pacto mostrou ainda mais seu poder de aterrorizar os leitores, pois seu crescimento literário foi imenso em relação ao primeiro livro. Já com Fantasmas do Século XX, livro que reúne uma coletânea de contos, o gênero terror não é sua marca. O que predomina em todas as páginas é sua capacidade de envolver e fascinar quem lê, além do sobrenatural e o suspense puro passear por todos os cantos. Quem começa a ler tendo em mente se assustar, pode não gostar. Mas quem tem a mente aberta e apenas o desejo de ler um bom livro, vai se emocionar e se envolver de uma maneira tão única pelos personagens que vai ser difícil de esquecer.

Quase todos os livros de contos seguem uma regra, e a maioria tem que concordar comigo: uma intercalação entre histórias excelentes, outras boas e algumas um tanto ruins. Fantasmas do Século XX, porém, foge totalmente dessa regra. Dos dezessete contos que compõem o livro, todos são tão bem narrados e bem escritos que não deixam a desejar em nenhum momento. É claro que alguns são melhores que outros, a isso é impossível escapar, mas até mesmo os contos que não são tão bons quantos os melhores são fascinantes o bastante para que não nos cansemos durante o desenrolar da história. E em nenhum momento encontrei características em um dos contos que me faria dizer algo como: "Se não fosse por esse conto, o livro seria perfeito". Todas as histórias são perfeitas de maneiras próprias, o que acaba gerando um livro único.

Gostaria de fazer um pequeno resumo de cada conto, mas como são dezessete, a resenha não teria fim. Por isso faço pequenas observações dos que mais gostei:
"O melhor do novo horror" tem um ar um tanto quanto pastelão, mas cria bem seu clima como ponto de partida para todos os outros contos que vieram a seguir. "Fantasmas do século XX", conto que dá nome ao livro, nos leva a um cinema assombrado por uma garota, longe de aterrorizar, mas perto o bastante para gelar a espinha. "Pop Art" me deixa quase sem palavras. Melancólico e triste, nos apresenta a um personagem e uma história tão fascinantes que faz de todo o livro imperdível de ser lido. "Último Suspiro" é o conto mais criativa, trazendo um estranho museu que expõem sua coleção de últimos suspiros de personalidades famosas, como Edgar Alan Poe e Roald Dahl. "A capa" sem dúvida fica entre as melhores: um homem capaz de voar ao colocar sua antiga capa de criança, tão bem narrado que parece quase real e traz um final um tanto inesperado. "A máscara do meu pai" e "Internação voluntária" são tão perturbadores que ao acabarmos a leitura sentimos até um certo alívio. Alívio de tudo ter acabado, e alívio por nada daquilo ser real.

Ao ler este livro, muitos devem estar pensando que Joe Hill fará como o pai, Stephen King: escreverá livros de terror, mas também outros livros onde o terror passa bem longe e o drama é mais predominante. Mas vale ressaltar que os contos de Fantasmas do Século XX foram escritos em revistas entre os anos de 1999 e 2005, bem antes de A Estrada da Noite e O Pacto serem escritos. Se ele depois irá escrever livros como este, isso é incerto. Mas podemos ter a certeza de que o autor nasceu no suspense e no drama, e não no horror como o pai.

Mais do que um simples escritor, Joe Hill chega à excelência. Seu melhor feito, com certeza, é terminar a maioria dos contos não com um ponto final, e sim, com um ponto de interrogação. Quem imagina e constrói os finais dos contos não é o autor, e sim, o leitor. E isso nos faz mais do que tudo partes integrantes da história e de toda a ação, aumentando ainda mais nossa melancolia nos contos dramáticos e nosso pânico nos contos angustiantes. Se quer participar dessa maneira de um livro, leia Fantasmas do Século XX. Sua visão de livros de contos nunca mais será a mesma.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O Herói Perdido


Para que um autor faça sucesso, não é necessário muita coisa. Com a febre de temas sobrenaturais que vem ocorrendo atualmente, basta criar um livro com vampiros, bruxos e lobisomens que a fama será quase certa. Mas escrever uma grande história, com personalidades fortes e que atuam em aventuras épicas, em um livro que será marcante para toda uma geração, isso é para poucos. Pois foi o que Rick Riordan conseguiu fazer ao criar a série Percy Jackson e os Olimpianos, uma das séries mais originais e criativas lançadas nos últimos tempos. Porém grandes autores devem saber usar bem seus dons de escrita. Podem continuar escrevendo outros livros de mesma ou até maior genialidade, ou a fama pode lhes subir a cabeça e resultar numa composição de histórias nem tão boas assim. Por estranho que pareça, Rick Riordan seguiu por estes dois caminhos.

Por um lado, temos "A Pirâmide Vermelha", em que Riordan mostrou claramente o que acontece quando um autor é atingido pela fama repentina. Um livro com uma história sem nem um pouco de emoção, com personagens que deixam a desejar e um humor que tenta fazer rir, mas não consegue em momento algum. Poderíamos dizer até que é plágio de "O Ladrão de Raios" se os dois livros não fossem escritos pelo mesmo autor. O único consolo é imaginar que a continuação será melhor, pois se não for, não há nada que salve As Crônicas dos Kane. Mas por outro lado, podemos ver "O Herói Perdido", que felizmente não se mostra uma cópia malfeita dos outros livros do autor como era de se esperar. Vários pontos se apresentam bem semelhantes, é verdade, mas o livro se mostra como uma continuação da série Percy Jackson. Uma continuação que, sem dúvida, não deixa nem um pouco desejar.

Ambientado no Acampamento Meio-Sangue, o mesmo da série Percy Jackson, a história de "O Herói Perdido" se passa poucos meses após a grande guerra contra os Titãs, que teve fim em "O Último Olimpiano". Seu ponto de partida é uma profecia terrível que irá repercutir na vida de todos os semideuses:

Sete meio-sangues responderão ao chamado.
Em tempestade ou fogo, o mundo terá acabado.
Um juramento a manter com um alento final,
E inimigos com armas às Portas da Morte afinal.

Para quem não esperava encontrar alguém tão engraçado e carismático quanto Percy, aqui podemos ver três personagens que dividem a cena: Jason, a coragem e a força; Piper, a beleza e a persuasão; e Leo, o humor e o cérebro. Revezando-se durante todo o livro em seus pontos de vistas, ao final da última página sentimos um leve desconforto por abandoná-los, pois são personagens extremamente distintos entre si, mas que se completam e que deixam saudades. Além deles, antigos personagens, como Annabeth, Thalia e Quíron, marcam presença, e outros como Festus e o Treinador Hedge, chegam para completar a turma.

O número de personagens das antigas lendas gregas é vasto, mas um dia estes seres mitológicos irão se esgotar, pois não há quantidade suficiente que suporte uma série inteira de livros sem repetí-los. Mas Riordan, mesmo depois de abranger deuses, monstros, heróis, seres e espíritos da natureza, dentre vários outros, ainda consegue se superar. Embora os personagens mais famosos da mitologia grega tenham aparecido durante as aventuras de Percy, desta vez quem ganha a cena são alguns não tão conhecidos, como os deuses do vento, além de mortais que a muito estavam mortos, mas agora voltaram, como Rei Minas e Medeia, trazendo as melhores cenas de todo o livro. E para melhorar ainda mais, podemos ver o outro lado dos deuses. Seus lados romanos são mais abordados, e se deuses gregos e romanos pareciam ser semelhantes no início, no fim as diferenças são incontáveis. Velhos deuses, que ainda não haviam aparecido muito, ganham seu espaço, como Hera e Afrodite.

Enfim, "O Herói Perdido" não erra em momento algum. A linha de Percy Jackson é mantida, isso não há dúvida, mas tudo é tão bem narrado e cheio e ação que não há como não gostar. A aparição de três personagens principais fez com que o livro ficasse mais do que fascinante, apresentando também mistério, detalhes inúmeros e um pouco de complexidade, pois são três histórias para serem contadas. Jason e sua falta de memória, Piper e seus sonhos sinistros, e Leo e sua Tía Callida, garantiram um enredo imensamente sedutor e difícil de largar. Mais uma grande série de Rick Riordan, que começa de maneira formidável e parece conter ainda mais batalhas, lutas e monstros de peso pela frente. Que venha os próximos volumes, com todas as tristezas e saudades que irão deixar!

sábado, 4 de junho de 2011

A redação que não foi

No mês passado, o governo de Minas Gerais promoveu um concurso de redação sobre a importância do leite e seus derivados, para celebrar o Dia do Leite, comemorado em 1º de junho, data na qual sairia o resultado do concurso. Como o tema era livre, resolvi escrever uma pequena história de como o leite interfere em nossas vidas. Infelizmente meu nome não estava entre os três ganhadores do concurso, mas pelo menos já valeu pelos elogios dos amigos e professores. Quem sabe não ganho na próxima vez? (:

Leite que te quero leite

Em uma manhã de sol, Joana acordou com vontade de alterar sua rotina. Ao contrário dos outros dias, substituiu a xícara de café matinal por um grande copo de leite. O líquido branco foi ingerido com deleite, e os lábios estalaram querendo mais. Mal sabia Joana que aquele simples copo de leite iria afetar e muito o seu dia.

Quando suas pernas tocaram o chão, os osso se mostraram fortes e resistentes, pois o cálcio e o fósforo do leite penetraram fundo em seu organismo, diminuindo suas chances de ter osteoporose como a mãe. A força e o entusiasmo ao sair para a escola só poderiam provir do leite, pois maior fonte de energia não há.


Ao chegar à escola, seu cérebro estava mais desperto do que nunca, com o manganês do leite ajudando em seu funcionamento. Os açúcares dos doces ingeridos no intervalo foram processados pela tão preciosa niacina, e a gripe do colega passou longe espantada pela vitamina A.

Ao voltar para casa, sua mãe a esperava com outro copo de leite. Sorrindo consigo mesma, Joana bebeu até a última gota e se recostou no sofá, com o potássio equilibrando sua correndo sanguínea lentamente. Os outros alimentos que a desculpassem, mas o leite não sairia de sua vida jamais.

sábado, 14 de maio de 2011

Quem é Você, Alasca?



Desde os primeiros instantes, "Quem é Você, Alasca?" já dava mostras de ser um livro singular. Para começo de conversa, sua capa não me agradou muito, ao contrário do que sempre acontece quando vejo um bom livro. O que me fez apaixonar por ele, na verdade, foi sua sinopse, tão insinuante e tão sugestiva, que para mim teve um gosto a mais do que sem dúvida teve para as outras pessoas que a leram. Assim que fui seduzido por ela, minha sorte estava traçada e percebi um grande detalhe: este seria o melhor livro de toda a minha vida. Pois nunca estive tão certo em relação a alguma coisa.

O livro narra a história e Miles Halter, um garoto de 16 anos sem amigos, com uma vida extremamente sem graça e que é apaixonado por últimas palavras de personagens famosos. Quando descobre as últimas palavras do poeta François Rabelais ("Saio em busca de um Grande Talvez"), decide ir atrás deste Grande Talvez e se muda para um colégio interno. No local irá descobrir a amizade, o amor e o desespero ao lado de seus amigos Alasca e General, e passará os melhores, os piores e os mais marcantes momentos de sua vida.

Não tenho vergonha de dizer que cheguei a derramar algumas lágrimas ao ler o livro. Acredito que isto é algo totalmente comum para quem o ler. Mas não chorei do livro, e sim, com o livro. Existem muitas diferenças entre as palavras 'do' e 'com', diferenças nas quais foram de extrema importância durante minha leitura. Não chorei pelas coisas que vi no livro, e sim, chorei relacionando as coisas do livro com o mundo. Chorei pelas injustiças, pelas tristezas e por toda a crueldade existente na vida. Chorei por tudo que foi e pelo por o que será, pelo que é e pelo que já era. Mas acima de tudo chorei pelo que não foi e pelo que nunca será.

Não preciso dizer que "Quem é Você, Alasca?" se tornou o melhor e mais emocionante livro que li em toda a minha vida, pois minhas lágrimas já dizem tudo. O tempo pode passar, os anos podem me corroer, meus outros livros podem se desfazer. Mas meu exemplar de "Quem é Você, Alasca?" será guardado eternamente junto a meus tesouros mais preciosos, como algo raro e particular que tenho o desejo de esconder do resto do mundo.

Miles Halter é tudo aquilo que eu era, tudo aquilo que eu sou e tudo aquilo que eu quero ser. Um personagem nunca tocou tão profundamente em mim, e nenhum outro se assemelhou tanto a mim quanto ele. É claro que não sou tão solitário, mas seus pensamentos, suas ações, seu modo de ver o mundo, tudo é exatamente como eu sou. Com um personagem assim, o livro se tornou mais do que marcante. Se tornou eterno. Quanto a Alasca, não preciso dizer nada. Como Miles diz, "... se as pessoas fossem chuva, eu era a garoa e ela, o furacão." Pois deixemos que o furacão continue em seu turbilhão sem fim, pois sua força é tanta que nem é preciso tecer comentários. O único fato que tenho a dizer é que Alasca é a personagem mais fascinante de todos os livros que já li. Ao lado de Gordo e General, será lembrada para sempre.

Para finalizar o sentimentalismo barato, "Quem é Você, Alasca?" não é como os demais livros que lemos no dia a dia. É um livro para se emocionar, se divertir, se aventurar e até temer, mas sobretudo um livro para filosofar, refletir e pensar sobre a vida. Uma visão singela daquilo que é o amor, a amizade e a vida, nas mãos de um dos maiores escritores que existem hoje em dia, John Green. Leia e se emocione como eu.


John Green

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Última Estação




"Tudo o que eu sei, somente sei porque eu amo. Liev Tolstoy - Guerra e Paz". Estas são as primeiras palavras do filme A Última Estação, que narra os dias finais da vida de Liev Nokolaievich Tolstoy, considerado um dos maiores escritores de todos os tempos. Como era de se esperar com esta frase, o filme tem como assunto principal seu amor e seu casamento turbulento com Sofya Tolstoy, que para o grande escritor era esposa, companheira, musa e grande colaboradora. Um amor incondicional que ao mesmo tempo lhe trazia prazer, felicidade e grande regozijo, mas também algumas tristezas e aborrecimentos pelo fato das opiniões de esposa e marido convergirem bastante.

Talvez hoje em dia muitas pessoas não ouçam falar em Liev Tolstoy, mas no século XIX ele foi um dos grandes nomes da literatura russa. Guerra e Paz, sua obra mais famosa, é conhecida mundialmente como um dos maiores livros da história, e seus riquíssimos detalhes e descrições das guerras napoleônicas ocorridas na Rússia são admirados até hoje. Outra obra de sua autoria que alcançou grande sucesso foi Anna Karenina, na qual narra a vida de uma mulher da Rússia Czarista que se vê envolvida em um caso extra-conjugal. Além de ser conhecido por essas grandes obras, Tolstoy teve uma velhice marcada por manifestos contra o governo e atitudes pacifistas, e é exatamente essa fase de sua vida que o filme nos apresenta.

O ano é 1910. Liev Tolstoy já adquiriu fama e prestígio, e é conhecido na Rússia com um profeta e até mesmo um santo vivo. Ao lado de seu grande amigo Vladimir Chertkov, criou o movimento tolstoiano, no qual defende seus principais ideias, além de fundar um centro do movimento onde várias pessoas vivem seguindo seus ensinamentos. Valentin Bulgakov se torna o novo secretário de Tolstoy por intermédio de Chertkov, que busca saber tudo o que acontece na casa do amigo. Quando descobre que Sofya não acredita nos propósitos do marido, e quer lucrar com os direitos autorais de seus livros, no qual Chertkov esperava serem leiloados ao movimento tolstoiano, este decide intervir, o que gera uma série de intrigas entre todos.

O ator James McAvoy repete o que fez no filme O Último Rei da Escócia, no qual atuava como um jovem médico amigo de Idi Amin Dadá (Forest Whitaker). Em A Última Estação, ele faz o papel de Bulgakov, que se torna secretário particular de Tolstoy já na velhice e passa a presenciar todos as suas intrigas familiares com a mulher Sofya. Bulgakov é impotente o filme todo, e não pode fazer absolumante nada para ajudar ou remediar os acontecimentos. Sua intenção, é claro, se remete apenas a nos apresentar a grandiosa vida de Liev Tolstoy.

Além de James McAvoy, que apresenta mais uma vez um papel brilhante, o filme conta ainda com um elenco extremamente genial e super bem escolhido. Helen Mirren é Sofya Tolstoy, e nos traz seu melhor papel desde A Rainha. Sua atuação é magnífica, o que a torna o grande destaque do filme, e não a toa concorreu ao Oscar como melhor atriz. Christopher Plummer nos apresenta um Tolstoy impecável, no qual não se deve apenas admirar, mas também se espantar com tamanha competência. Além deles, Paul Giamatti é um extremamente bem feito Chertkov, dentre vários outros atores que se destacam.

Com um roteiro, figurino, trilha sonora, cenário e uma fotografia impecáveis, A Última Estação é um filme de época a muito não encontrado igual no cinema. Os últimos momentos da vida de Tolstoy, as grandes intrigas e seus principais acontecimentos, são minimamente narrados e nos envolvem imensamente. De direção de Michael Hoffman e baseado no livro de Jay Parini, será um filme que irá instruir e surpreender a todos. Conhecer a vida de Tolstoy realmente é uma coisa que não tem preço. A Última Estação se encontra atualmente em cartaz nos cinemas.








Trailer do filme