O adeus doído

Caro amigo,

Hoje estou sozinho e não consigo ver para onde ir
As pessoas não estão por perto, não há palavras, não há nada
Eu estou sozinho

Espere

Eu estou sempre sozinho, não apenas hoje
Vamos parar com o otimismo barato
Ninguém se importa

Já peguei uma pedra e o sangue escorreu por meus braços e pernas
Chorei tanto, por tanto tempo
Não havia ninguém para ouvir
Não há ninguém para se importar

Eu estou cansado

Fico pensando nas pessoas morrendo de fome
Morrendo na guerra
Morrendo de doenças
Morrendo de tantas maneiras diferentes

Eu morro pelos devaneios de minha mente
Isto está certo? Eu acho que não
Se Deus existe, não era para ninguém sofrer
Se Deus realmente existe, ele está olhando para quem precisa de verdade

E eu, como sempre, estou sendo deixado de lado
Como sempre fui
Percebo o quanto sou egoísta
Mas eu não tenho para onde correr, a quem recorrer

Agora, nesse átimo de segundo, não tenho ninguém para conversar
Então eu vou embora
Eu desisto

Não vou embora definitivamente, é claro
Afinal, nunca teria essa coragem
Mas vou embora em espírito

Meu espírito partiu para um lugar bonito e feliz
Um lugar em que nunca fui e nunca irei
Pois meu espírito está cansado de chorar

Agora sou um corpo vazio
Se contente com isso
Às vezes, quando estou triste, fecho os olhos e vejo um cenário de felicidade

Do lado direito, um amigo
Do lado esquerdo, um amor
Nós estamos rindo, estamos felizes, estamos em paz
É lá que meu espírito está
É lá que eu nunca estarei

Espírito, fique bem, por favor
Porque eu nunca poderia voar tão alto como você

Está feliz?
Mundo, está contente por fazer com que o otimista desista de tudo?
Está feliz por ver alguém chorar todos os dias, e não fazer nada a respeito?
Você não se importa
Nem as pessoas

Quando você chamar meu nome, lembre-se que, neste momento
Neste exato momento
Eu estou esperando ouvir sua voz
E você não me chamou

Eu estou sozinho e esperando
Quando eu ouvir sua voz, não vai mais precisar

Sim, você mesmo
Eu não vou mais ouvir
Porque eu desisto
Desisto

Meu amigo, já me alonguei demais
Sinta minhas feridas, minhas dores
Sinta o sangue escorrendo por meu corpo
Você não merece ouvir, mas você causou isso
Obrigado por todas as vezes que me fez sofrer

Ainda continuo vivendo
Mas sou apenas um corpo sem nada
Um coração que não bate
Um pulmão que não respira
Sem espírito

Sou apenas olhos que sabem chorar

Obrigado pelo azul que me fez sonhar
Obrigado por nunca oferecer seu amor
Obrigado pelo som bonito que nunca ouvi

Adeus
M.

Sim, sou eu

Caro amigo,
Estou deitado na cama e não sinto mais o vento. Passo as mãos em meus braços, fingindo ser outra pessoa, mas nenhum contato muda o fato de ser o vazio o único companheiro da pele.

Tracei bonitos sonhos em meus dias, pincelando emoções que nunca vivi e sempre almejei impacientemente. Esperei um sorriso que não existe, desejei o amparo que não mereço, busquei mãos que nunca poderei sentir. Estou cansado e estou indo embora.

Pensei em mil maneiras para me despedir, mas nenhuma delas faria jus aos meus sentimentos ou ao que você merece ouvir. Eu deveria ser capaz de fazer nascer flores com as palavras, assim como deveria cortar o mundo em pedaços por você. Mas não tenho forças nem capacidade para tanto.

Na falta de tudo e de todos, na falta de nome e sobrenome, deixo as palavras de Drummond:

O mundo não vale o mundo, meu bem.
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas se tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.

Para você, deixo as vinte roseiras tingidas de vermelho. Talvez se o socorro saísse de meus lábios mais cedo, você poderia me ajudar a cortar os espinhos. Mas qual seria a graça do mundo sem espinhos e um pouco de sangue derramado? É uma pena eu me afogar.

Saiba que sinto meu rosto úmido e o gosto de sal em meus lábios, mas estou bem. Queria que você soubesse que nem todas as pessoas nascem para desfrutar a vida como ela deve ser vivida. Algumas pessoas são fracas o bastante para sair mais cedo, à francesa.

Silencioso como nobre samurai, corri e lancei a espada do desespero na garganta de meu maior inimigo. Não acertei. Desferi um golpe contra meus maiores medos, e tingi mais vinte roseiras de vermelho. Era um espelho, e tentava ferir a mim mesmo. Só queria que você soubesse que tentei com todas as minhas forças.

Com você meus dias foram um pouco mais fáceis, mas eu jamais poderia arrasta-lo para a luz negra que está me consumindo. Eu desejo um futuro bonito e sincero para você, e que continue sempre a pintar o quadro dos mil e um desejos. É bonito demais ver pessoas que são elas mesmas, mesmo com todos os medos e dúvidas. E você é assim.

Em todas as minhas histórias, os meninos, seres e homens eram sempre peças quebradas, prontas para serem consertadas. E eu, mentor supremo de todas as narrativas, conseguia consertar todas elas. Mas eu não tenho conserto e nem consigo encontrar pessoas para me ajudar.

Não é culpa sua e nem de ninguém. Não é culpa do mundo, de Deus ou do destino. Não existem culpados ou inocentes. Às vezes os fatos ocorrem simplesmente porque devem ocorrer. Só não esqueça de minhas lágrimas quando olhei para o Infinito. Elas eram o que existia de mais bonito em mim.

Para sempre seu,
M.

Gloriosa despedida

Um dia o garoto percebeu
que nada poderia fazer
em relação à tristeza
que imperava em seu peito.

Não importava o quanto chorasse
nem gritasse em silêncio
afinal, ele não possuía voz
e seu grito não emitia barulho.


Nada significavam as alegrias
breves, rápidas e passageiras
a tristeza estava à espreita
com seus olhos negros e certeiros.

Nem valor algum possuía
as frases feitas dos amigos
de que a vida seria bela
e de que tudo iria melhorar.

Após duas décadas de cansaço
o corpo se cansa
o corpo reclama
o corpo pede ajuda.

E o garoto então percebeu
que existem duas pessoas no mundo
as que nascem para viver
e as que nascem para sofrer

E ele com certeza
estava no segundo grupo
pois sofrer era seu lema
mesmo que não quisesse.

Em um dia de semana
foi à aula e nada conseguia ouvir
pois o barulho de sua mente
era maior do que tudo.

O professor abria a boca
e nada saía
seus amigos falavam
e ele nada conseguia ouvir

E o garoto decidiu
fugir de todo o caos
pois como dizem por aí:
os incomodados que se retirem

Ele foi para casa
em busca das flores
as vermelhas pulsantes
até bonitas de se ver.

Quando resolveu ver as flores
elas caíram aos borbotões
aos seus pés
em seus braços.

Eram vermelhas
vermelhas
vermelhas
vermelhas

Doíam como fogo
doíam como a alegria
que não mais iria existir
e que parecia nunca ter existido.

Entre flores vermelhas
o garoto deitou-se na cama
incômoda e sem graça
e sorriu.

Sorriu porque em seu íntimo
ele era um garoto feliz
mas o mundo sugou tudo
felicidade, cor, graça.

Em seu átimo de infinito
veio o impulso mais forte
a sagaz selvageria
o instinto escondido.

Era o sorriso
de um pequeno garoto 
cujo único desejo
era apenas sorrir.

Se a vida tomou seu sorriso
ele estaria entre as flores 
com o maior dos sorrisos
a sorrir até o fim.

Pois ele era teimoso
cabeça-dura
chato pra caramba
e iria revidar toda a dor.

E não há dor maior
do que querer e não poder
do que desejar e não existir
do que sentir e não se satisfazer.

E na cama incômoda
os olhos do garoto
fecharam-se devagar
para não mais acordar.

Em sua mão um bilhetinho
escrito em código
que ninguém iria entender
continha tudo o que você leu até aqui.

Andanças fora de prazo

Quatro horas da tarde, o relógio apita. É hora de ir para casa. O garoto sai do trabalho e percebe que de todos os lugares no mundo, o único em que não gostaria de estar é em casa, assombrado por seus maiores medos. Embaixo da cama, um monstro de três metros de altura: a solidão. Sobre cada objeto, o sangue do herói: a amargura. Junto à janela, uma trilha sonora arrepiante: a tristeza.

O garoto lembra de seu filme de terror caseiro e suspira. Um daqueles suspiros longos, cansados, de dar dó. O colega pergunta se está estressado ou triste. “Não, é só dor de cabeça”, responde. Pega a mochila pesada, abaixa a cabeça e sai andando, com o peso do mundo nas costas.

Anda distraído, mas com cuidado. São tantos lugares para evitar que fica difícil não se manter atento. Isso, é claro, graças ao Medo de altura. Não pode passar por viadutos e nem jamais subir em passarelas. Não pode subir em prédios altos e nem embarcar em elevadores. Mesmo que a altura não seja presenciada, o menino sente suas garras o puxando para o abismo.

Transfere a vista para o céu e olha os prédios tocando as nuvens, aqueles gigantes com milhares de andares. Pergunta se algum dia será capaz de subir nas torres de marfim e ver o mundo de cima. Mas sabe que mesmo se estivesse no topo, ainda estaria abaixo do mundo. De tudo e de todos. “Se dependesse de mim, Rapunzel ficaria trancada para sempre”, pensa.

Um sorriso surge ao lembrar da infância, quando o Medo não o consumia e era capaz de subir em prédios altos e frios. Ele adorava olhar para baixo e cuspir, simples assim. Não havia adrenalina maior do que ver o cuspe cair torre abaixo, procurando um transeunte desavisado. Nojento e maldoso, mas divertido. O que chegaria primeiro ao chão, o cuspe ou o elefante? Já sei o que caiu e sangra na calçada: os sonhos do menino.

Esquece o Medo ao notar as pessoas, que andam apressadas pela rua. Avista algumas felizes e outras de mau humor. Nota a bondade e a má vontade. Vê mendigos e pergunta para si o que eles fizeram para estar ali: “mataram alguém, foram expulsos de casa, são loucos? Ou simplesmente quiseram morar na rua?”. É improvável que alguém opte por morar livremente em um lugar como este. Mas não é impossível. O menino repara principalmente nos pés dos mendigos: negros de sujeira, brancos de poeira, cheios de rachaduras e feridas. São pés muito tristes.

No caminho vê um antigo colega de trabalho. Segue em frente e finge ser cego, pois a força para parar e conversar não existe, muito menos a vontade de ser simpático com alguém que não há intimidade. Mais à frente esbarra em uma moça de sua van escolar. Dessa vez se anima para trocar um sorriso, mas ela passa direto feito vara verde. Não viu o menino ou fingiu que não viu? Eis a questão. É o troco da vida por se fingir de cego quando dá vontade.

Além do Medo, as ruas guardam outro soco no estômago: os lugares-lembrança. Esses talvez doam mais do que a altura. Naquele ponto de ônibus, o garoto deu seu primeiro beijo de amor. Debaixo daquele viaduto, foi feliz como nunca se sentiu antes com seus amigos. Naquela mesa de bar, ouviu o primeiro “eu te amo” sincero, direcionado especialmente a ele. Tudo isso passou? Ele sente que sim, mas não tem certeza.

As lembranças doem, principalmente essas incertas, que podem voltar a qualquer instante ou nunca mais. Está certo amar alguém e se sentir sempre sozinho? É correto ter amigos e não ter ninguém quando precisa? Deixar um amor ou um amigo sofrer deveria ser proibida por lei, com direito à multa milionária e risco de prisão perpétua. “Até quando?”, ele pergunta.

Continua a andar e se vê na Praça, aquela que tanto gosta, cheia do verde e do azul. Felizmente, o mundo ainda não conseguiu estraga-la. Como o garoto sempre vai até ela sozinho, sozinho ele sempre vai se sentir, e ela não será um lugar-lembrança doloroso. Senta em um dos únicos bancos livres, de madeira branca e encardida. Um banco aquecido pelo sol do fim de tarde.

Só fecha os olhos e respira. Respira fundo e devagar. Abre os olhos e vê casais e famílias. Homem-mulher. Mulher-homem. Homem-homem. Mulher-mulher. Crianças correndo para todo lado. Um menino anda de bicicleta e vira em uma curva errada. O pai grita lá de longe, para a criança ficar por perto. Um cachorro e seu dono passam com uma coleira cor de rosa. O dono xinga pela hiperatividade do bicho e ordena que ele pare de se mexer tanto.

Há também as pessoas solitárias, que nem o menino. Um velho em um banco por perto olha tudo com olhos marejados. Sabe-se lá o que está pensando. Ele é negro, de barba branca, bota preta nos pés e camisa social branca. Ele começa a mexer na bota, tira os cadarços. Tira a bota, coloca o pé no chão. Tira as meias pretas e sente o chão com os dedos. A pedra, a terra, a sujeira.

Surge uma moça com dentes pontiagudos, andando descalça pela praça. Dá medo. “Quem tem dentes assim?”, sussurra o menino. São pontiagudos e separados. Pode ser um duende disfarçado, pois também tem orelhas pontudas. Ela vende trevos de quatro folhas para dar sorte, e o dinheiro será para ajudá-la em sua estadia na cidade, já que vem de longe. O garoto recusa gentilmente, pois nunca teve sorte e nem nunca terá. Um trevo com certeza não vai ajudar.

Vem um moço que parece bruxo disfarçado, chapéu alto na cabeça, com a ponta alcançando o céu. Ele traz uma lata com cookies de chocolate. “Ainda tem um ingrediente especial”, diz ele, sorrindo de lado. O que será? Talvez o garoto precise justamente de um ingrediente especial em sua vida, mas recusa. Sabe-se lá de que lado da força se encontra o bruxo, e se o ingrediente vai fazer mais mal do que bem.

Aparece uma mulher bonita, parecida com uma andorinha-do-campo. Tudo porque assobia lindamente, como um pássaro, aquecendo os corações. Também é miúda e pequena, delicada como penas. Vende brigadeiros confeitados, que prometem trazer lembranças de casa e sonhos já perdidos. Esse o menino compra, sem pensar. Era o que queria.

Ele espera a andorinha sair para comer, pois sente vergonha de fazer isso em sua frente. Ele dá uma mordida e lembra da mãe. A mãe que ama e está em outra cidade, distante. Dá a segunda mordida e lembra dos amigos. Ele também ama os amigos, mesmo que nenhum deles esteja por perto. Nunca estão por perto. Dá a terceira mordida e lembra de quem ele ama mais. Que está com ele apenas quando quer. O doce acaba. O sangue do herói respinga o chão.

Uma lágrima solitária cai pelo olho esquerdo. Tudo nele tem que ser solitário. Dá um adeus ao mundo e deita no banco para dormir. Às vezes vai acordar daqui a 15 minutos. Às vezes nunca mais vai acordar. Essa é uma de suas maiores vontades.

Desentendimentos em preto e branco

Caro amigo,

Gostaria de dizer que os últimos dias estão sendo fáceis, mas eu estaria mentindo para você e para mim mesmo. Tento encontrar pistas para a aquarela do sentido, assim como resquícios para a furtiva sanidade, mas são aspectos da existência que fogem de minhas mãos. A solidão e o pessimismo pressionam meu interior, favorecendo dias penosos e sem sentido. 


Mas o que são dias fáceis? Sinônimos da paz e da felicidade, fingidas e dissimuladas? Provável que não, como você há de concordar. Ainda assim, continuo sem saber ou entender, sobretudo graças à minha incapacidade de me expressar ou buscar a lucidez em outros seres humanos.

Um dia desses, sozinho em casa, comprei um vinho barato para refletir e buscar o conhecimento. Bebi até a última gota do fel, mas ao espiar no fundo vazio da garrafa, nada encontrei. Me virei do avesso e encontrei somente o vazio. Odiei o vinho por não me fornecer respostas, e odiei as pessoas que não estavam ali e me faziam beber sozinho.
Ninguém deveria se desentender com vinho e com as pessoas. É perda de tempo - Claude Lherminier, Floride
A maior parte de meus segundos são gastos com desentendimentos, e muitas vezes eles não fazem sentido algum. Será que tenho problemas? Eu realmente não sei. Você percebe o quanto é triste ser formado apenas de incertezas? Fico imaginando como seria carregar as certezas da vida no peito, essas fundamentais para firmar nossos pés no chão e não nos deixar cair.
A vida é como uma pista de gelo. Há muitas pessoas que caem. - Aurélie, Le Tout Nouveau Testament
O problema, meu amigo, é que eu caio demais. Meus pés escorregam o tempo todo e sou levado ao chão vezes sem fim. Minhas feridas vão se tornando profundas, as marcas roxas em meus braços e pernas se intensificam, as lágrimas escorrem e não há nada a fazer para pará-las. E assim eu continuo, sem saber o que fazer.

Eu só queria ser alguém melhor, sem ter a sensação de que tudo o que faço está errado. Sem acreditar que sou um ser humano sem função e que nada consegue fazer. 
Um sábio uma vez me disse: “Está tudo bem ser assim”. Não acreditei nele, mas por alguma razão, comecei a agir assim. – Jesse Fisher, Liberal Arts
Como poderia achar que está tudo bem, se nada consigo agindo do meu jeito? Tudo o que faço é ser otimista e acreditar que acontecimentos melhores chegarão de mansinho. Mas eles não estão chegando, e o desespero está batendo em meu peito. Bate e volta, sem parar.

Mas estou me exaltando. Vejo bem que estou me desesperando, e não posso fazer isso. Nessas horas minha respiração fica rápida, todo meu corpo dói e minha mente é tomada por pensamentos ruins. Aqueles de flores murchas, imagens desbotadas e estrelas em queda. Vou fazer de tudo para ficar bem, prometo. Estou fazendo de tudo. Você me ajuda? 
Eu não vou deixar ninguém te machucar novamente. E eu não vou te machucar. Eu só quero que você seja quem você é. Você me escutou? Farei o melhor, prometo. - Karen Moreno, Demolition
Obrigado, meu amigo. Quando essa mensagem chegar a você, estaremos em um novo ano, de desejos marotos e sonhos bonitos. Eu só queria que você estivesse aqui para que pudéssemos sair e aproveitar a virada do ano como nós merecemos. Como eu mereço.

Tenho insistido comigo mesmo que meu melhor início de 2017 será sozinho, em casa, com alguma bebida em mãos. Afinal, um copo às vezes é um bom amigo. E um filme, talvez. Essa já foi a melhor forma de me agradar, em anos escuros e sombrios do passado. Mas não é agora e nem será. Um quadro bonito de início de ano seria eu com meus amigos, me divertindo e sendo feliz. Mas eu não terei ninguém. Nestes dias não tenho ninguém ao meu lado. 
Estou aqui, não estou? – Frank, Belgica.
Sei que está, mas ao mesmo tempo não está. Você está em espírito, e não em corpo. Você me ajuda quando fecho os olhos, mas nunca ajudará segurando minhas mãos. E isso é muito difícil. Eu só queria ter você por perto. Eu só queria saber como lidar.

Meus outros amigos estão por aí, vivendo suas vidas, sendo felizes de suas maneiras. E eu não tenho uma maneira de ser feliz sozinho, já que estou sempre triste comigo mesmo. A sina parece ser a felicidade com os outros, em função dos outros.

Passei tanto tempo em casa, sozinho, trancado entre quatro paredes, que eu nunca mais quero ficar sem ninguém por perto. Eu não quero, mas não há como escapar. É um monstro escondido debaixo da cama, pronto para sair. Essa é a minha vida. 
Seu problema é que você não é feliz sendo triste. Mas é isso que o amor é. Feliz-triste. – Raphina, Sing Street
Felicidade e tristeza podem andar juntas? Você diz palavras bonitas que aceito sem nem pensar duas vezes, mas não assimilo em minha mente vazia. Mas você me ajuda. Ajuda muito e não sabe o quanto. Se feliz-triste é o amor, meu amor pelas pessoas e pelo mundo é do tamanho do infinito. Pena que elas nunca percebem esse fato. E talvez nunca vão perceber.

Um ano fresco e singelo começa e eu continuo com os mesmos problemas, as mesmas tristezas. Na verdade, não, confesso. Se pegarmos meu eu dessa mesma época, no ano passado, veríamos que os dramas eram outros, bem diferentes. Mas ainda continuo com os dramas, que não consigo resolver. Você me ajuda? Você me levanta quando eu cair, e ampara meus passos para um final feliz? 
E nós precisamos do final? Algumas vezes na vida, você precisa fazer seus próprios finais. Contar sua própria história. – Danzer, Brothers of the Wind
Tudo bem, você tem razão. Começos, meios e finais fazem sentido apenas nos filmes, na vida a história é outra. A vida é contínua, quase sempre sem delimitações. Não sei se estou preparado para esse ano, pois nunca estive pronto para ano algum. Mas eu toco meu rosto e vejo que estou vivo. Talvez, sozinho, eu possa contar minha própria história. Mas não estou sozinho. Estou com você.

Com carinho,
M. 

Procura-se voz para cantar uma música

Caro amigo,

Ultimamente eu não ando muito bem, e nem mesmo sei qual é o motivo. Mas eu não quero tentar encontrar explicações para sentimentos que nunca parecem fazer sentido. 

Eu só queria dizer que carregar toda essa angústia dentro do peito não é tarefa fácil, e todos os dias me pergunto até quando. Até quando meus pés continuarão a caminhar.

Por que é tão difícil dar dois passos em linha reta sem tropeçar? Por que tudo parece ser uma grande brincadeira de mau gosto?

Às vezes a angústia é tão forte, e meu peito fica tão pesado e tão cheio de sentimentos ruins, que sinto que vou cair no chão para nunca mais levantar. Como uma tartaruga com o casco para baixo.

Mas por que eu ainda não caí? Não seria mais fácil desabar, se eu já estou sempre no chão?

Além da dor, existe a náusea. Eu queria poder acordar e não sentir meu estômago se revirando. Eu ando sem conseguir comer nada de manhã, porque sempre acordo enjoado. Enjoado de tudo o que de ruim há em meus dias.

Eu não sei falar. Eu não sei agir. Eu não sei pensar. Eu não sei fazer absolutamente coisa alguma. Como um vaso pode ser tão quebrado assim? 

As pessoas me perguntam por que eu estou triste, e eu nunca posso responder. Porque minha resposta não faria sentido. Eu não posso dizer que estou triste por algo que não sei. Eu só não estou me sentindo muito bem.

Você lembra o quanto eu gostava do Natal? Para mim, essa época sempre foi sinônimo de felicidade.

Agora? Não há presentes, sorrisos ou reencontros. Não há felicidade, esperança ou sonhos. Não existe Papai Noel e nem nunca existiu.

Eu sou a árvore de natal em que faltam presentes. Em que não há enfeites coloridos, bolas ou laços. Sem folhas ou correntes. Apenas galhos secos e partidos.

Meus dias são sonhos despeçados de criança, ao descobrir que Papai Noel não existe.

Algumas pessoas dizem que basta ter força de vontade para conseguir fazer o que quiser. Que apenas os fracos não conseguem.

Se eu continuo de pé, então acho que sou bem forte, não é? Mas é errado julgar as pessoas quando há algo quebrado dentro delas. Algo quebrado e que não pode ser colado.

Às vezes os pensamentos ruins aparecem, tão fortes, que eu preciso cantarolar uma música bem alto para eles irem embora.

Mas minha voz anda tão fraca ultimamente. Acho que não vou conseguir cantar por muito tempo.

Com carinho,
M.

As maldições

No dia em que você nasceu, foi um dia como qualquer outro. Não houve festa, sinos badalando na igreja nem fila de presentes na porta de sua casa. Não importa se você pensa que foi um dia especial, várias pessoas nasceram no mesmo dia e não houve nada de notável em sua chegada ao mundo.

Na verdade, há um detalhe que nunca contaram para você, mas que assombra seus dias desde o início: você foi amaldiçoado. Devo admitir que isso sim é algo especial. Quantas pessoas você conhece que foram amaldiçoadas ao nascer?


Mesmo sendo um detalhe único em sua vida, não acho que seja uma história muito feliz para contar aos seus amigos. Você é como um jovem porco nascido com duas cabeças, ou qualquer animal com algum tipo de anomalia estranha, que as pessoas sentem pena mas não têm vontade de chegar perto. Consegue sentir sua sina, essa aura estranha que paira sobre você e que parece não sair jamais? Agora ela tem explicação: suas três maldições.

Ao nascer, alguém sussurrou palavras terríveis em seus pequenos ouvidos, que adentraram seu cérebro e nunca mais saíram. É como aquele parente distante que chega em sua casa para passar férias e parece nunca mais ir embora. Você até tenta pedir com delicadeza, mas ele não se importa e continua a importunar sua vida. O problema é que em casa você pode se esconder em seu quarto, ou mesmo fugir para algum lugar. Mas seus problemas estão dentro de você, e mesmo que corra para sempre, eles ainda estarão em seu íntimo. Você está podre por dentro e só consegue caminhar porque tem muita força de vontade.

A primeira maldição é: você nunca vai gostar de si mesmo. Essa é engraçada, porque você nem é a pior pessoa do mundo, mas é claro que se sente assim o tempo todo. Temos que concordar que você é estranho, esquisito e está longe de ser o cara mais bonito do mundo. Mas já percebeu que existem pessoas muito piores, que todos os dias acordam e se sentem bem consigo mesmas, se achando bonitas e felizes? Você nunca vai se sentir assim.

Eu lembro o dia em que você saiu com aquela moça que você ama, que nunca foi nem nunca será romântica, mas se esforça de forma grosseira e peculiar. Ela virou para você e disse: "Eu podia estar saindo com qualquer cara, inclusive alguém mais bonito do que você, porque tem muitos por aí assim. Mas eu estou aqui com você porque eu te amo e não quero estar com mais ninguém".

E é claro que você só ouviu a primeira parte, porque na parte do "eu te amo" seus ouvidos já haviam parado de compreender as palavras. Na sua cabeça doentia, ficou registrado de uma forma bem diferente: "Você é o cara mais feio da face do planeta, mas eu tô aqui com você. Percebe o sacrifício que eu tô fazendo? Então beija meus pés e me idolatra pra sempre". Foi um elogio, um baita elogio vindo da moça. Mas você não ouviu, mesmo que goste pra caramba dela.

Eu não preciso me alongar, pois você conhece essa maldição muito bem. Você vai seguir odiando cada partícula de seu ser, se odiando, se odiando, se odiando. E se escondendo. E tendo medo de tudo pois nunca se sente capaz. E sempre querendo fazer mal a si mesmo. E não deixando as pessoas verem quem você realmente é. Mas nem você sabe quem você realmente é.

Sua segunda maldição é: você nunca vai se sentir bem em lugar nenhum. Sabe quando você está em casa e sente que vai enlouquecer? Então você sai e o único desejo é voltar para casa? Sua vida é essa, uma insatisfação constante.

Vamos ser mais claros. Sabe quando você sai com seus amigos, e ainda assim não consegue sentir que eles são seus amigos? Você sente que quer estar com eles, mas não está feliz estando com eles, e não sabe o que fazer? Exatamente isso. Não importa se o lugar é agradável e bonito, se as pessoas gostam ou não de você. Não interessa se tudo está bem e nem mesmo se alguém diz que ama você. Você nunca vai acreditar.

Fico pensando naquele dia em que você estava naquela festa, com aquelas pessoas, e começou como o melhor dia da sua vida. No fim da noite, no escuro, você só conseguia pensar o quanto tudo aquilo era falso e vazio, e que estaria sozinho logo que acabasse. E tudo o que você conseguiu fazer foi pegar os óculos escuros na mochila e usa-los na noite estrelada, para esconder as lágrimas que escorriam ao lado de seus amigos. Sim, você chorou enquanto dançava em uma festa no meio da rua. Eram pérolas que escorriam sem valor para ninguém.

Foi uma cena patética, presenciada apenas por você mesmo. Mas você não tem culpa, é claro que não, pois a culpa é de sua maldição. Você não consegue ficar feliz perto das pessoas, ou alegre pelos cenários da vida, porque você acha que não pertence a lugar algum e sabe que todas as pessoas vão desaparecer. A única lembrança gerada pela presença de seus amigos é a falta que eles irão fazer quando forem embora. E eles vão embora em breve. Todos vão.

Sua terceira e última maldição é: você nunca vai conseguir falar o que sente. Não basta você ser tão ferrado na vida, ser tão infeliz e miserável, você tem que estar fadado a não conseguir abrir os lábios e colocar para fora toda essa angústia que existe em seu peito. Percebe o quanto isso é irônico? Eu vejo a ironia, e estou rindo.

O mais engraçado é quando você está triste e as pessoas perguntam que merda há com você, e não há nada a dizer além de "estou bem". Não, garoto, não está nada bem, mas você não sabe falar, você não consegue. As palavras ficam agarradas em sua garganta, e você nem sabe por onde começar. Mesmo que existam pessoas que se importam, que estão sempre prontas para ouvir suas lamúrias.

É como aquela carne horrível, fibrosa e intragável, que às vezes vem parar em nosso prato. Você coloca na boca e mastiga, mastiga sem parar, mas ela não se desfaz, não se parte em pedaços, mesmo que você tente. E você tenta pra caramba, mas ela continua sendo algo horrível em sua boca. O problema é que você é educado demais para cuspi-la, e continua mastigando até que não aguenta mais e engole. Você quase morre engasgado, mas engole assim mesmo. A carne é toda a sua tristeza e a sua angústia, que você não consegue colocar para fora e não tem outra coisa a fazer a não ser engolir.

Essa é sua vida. Acostume-se. Você está sempre procurando alguém para quebrar as maldições (mesmo sem saber), mas infelizmente essa pessoa parece não existir. Eu ia dizer que ainda assim existe o lado bom de cada maldição (como quando você enxerga a beleza nos pequenos detalhes, ou quando aproveita cada segundo das situações felizes, ou quando às vezes consegue escrever o que sente), mas isso não está importando muito agora.

Tem um zumbido soando em sua mente e impedindo que o lado bom apareça. Você até tenta mas não consegue. É aquele mosquitinho chato que não vai embora de jeito nenhum. Só tenta manter a calma, está bem? Se o zumbido ficar alto demais você procura ajuda.

Desculpa eu contar sobre todas essas maldições, mas acho que estava na hora de conhece-las. Não acho certo uma pessoa viver sem saber o que está acontecendo, mesmo que você prefira a ignorância às verdades da vida. Quem sabe você não aproveita esse conhecimento e tenta melhorar a situação? É, eu sei que você não vai conseguir fazer isso. Só toma cuidado pra vida não te amaldiçoar mais ainda. Desejo a você todo o sucesso do mundo.